Tecnologia: o paradoxo da evolução para o bem ou para o mal...
- Marcia Amorim
- 4 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de nov. de 2025

O livro The Coming Wave: Technology, Power, and the Twenty-first Century’s Greatest Dilemma (A Próxima Onda: Tecnologia, Poder e o Maior Dilema do Século XXI) (2023), de Mustafa Suleyman com Michael Bhaskar, é uma reflexão contundente e provocadora sobre o que significa viver no limiar de uma revolução tecnológica sem precedentes. Suleyman, cofundador da DeepMind e da Inflection AI, fala de dentro do epicentro dessa transformação — alguém que ajudou a construir a inteligência artificial tal como a conhecemos. Seu olhar, portanto, não é teórico: é o de quem vê a tempestade se formando por dentro e tenta nos preparar para ela.
A tese central é inquietante: estamos prestes a atravessar uma nova onda tecnológica — e ela não se parece com nenhuma anterior. Diferentemente das revoluções industriais passadas, esta não se limitará a transformar o trabalho ou a economia, mas poderá remodelar a própria experiência humana. A IA (inteligência artificial) já deixou de ser ficção científica: é hoje um sistema que aprende, interpreta e executa funções cognitivas humanas. A IAG (inteligência artificial geral) desponta como um próximo estágio — máquinas capazes de pensar de forma ampla e transferir conhecimento entre domínios, como nós fazemos. E, no horizonte, vislumbra-se a IAC (inteligência artificial consciente ou autônoma), que ultrapassa o domínio do comando humano e começa a decidir, adaptar-se e agir por conta própria.
Suleyman não é um alarmista, mas também não é um entusiasta ingênuo. Ele combate o que chama de “aversão ao pessimismo” — a tendência de negar os riscos por desconforto ou conveniência. Evitar imaginar o que pode dar errado é, para ele, um erro estratégico. O autor nos convida a encarar de frente as consequências potenciais do que estamos criando: se a IA e a biotecnologia têm poder para ampliar nossa capacidade produtiva, também têm força para desestabilizar sistemas sociais e econômicos inteiros. O futuro, portanto, dependerá da nossa habilidade em exercer o que ele denomina “contenção” — o esforço consciente de limitar, supervisionar e regular o impacto dessas tecnologias antes que elas escapem ao controle humano.
O problema da contenção é, talvez, o dilema mais urgente do século XXI. Suleyman o descreve como a necessidade de aprender a segurar as rédeas de algo que cresce mais rápido do que nossa capacidade institucional de reagir. Para tanto, propõe dez passos práticos: investir em segurança e auditorias independentes; desacelerar a difusão das tecnologias mais perigosas; envolver críticos no desenvolvimento; realinhar modelos de negócio para incluir responsabilidade e propósito; fortalecer o papel dos governos e a cooperação internacional; fomentar uma cultura de aprendizagem com os erros; mobilizar a sociedade civil; e, sobretudo, integrar tudo isso num sistema coerente que funcione em conjunto. É uma agenda complexa — mas, como ele argumenta, inevitável.
A “próxima onda” traz quatro características que a diferenciam das revoluções anteriores. A primeira é a assimetria: pequenos grupos ou indivíduos terão poder desproporcional, capazes de influenciar o mundo com tecnologias acessíveis. A segunda é a hiper evolução: a velocidade do avanço técnico ultrapassa a capacidade humana e institucional de adaptação. A terceira é o omni-uso: a IA e a biotecnologia serão aplicáveis a praticamente todos os campos, do militar ao doméstico. E a quarta é a autonomia: sistemas que deixam de depender da supervisão humana direta e passam a operar de modo independente. Cada uma dessas forças, isoladamente, já seria disruptiva; juntas, formam uma onda capaz de redefinir o poder, o trabalho, a política e até a ética.
O livro é, ao mesmo tempo, um alerta e uma convocação. Suleyman não prega medo, mas responsabilidade. Não propõe frear o progresso, mas entendê-lo e moldá-lo antes que ele nos molde. Ele escreve para uma humanidade fascinada por suas criações, mas distraída quanto às consequências. E o faz com a autoridade de quem ajudou a acender a chama — e agora teme que ela se transforme em incêndio.
A próxima onda está chegando — e não será possível detê-la. Mas talvez ainda seja possível aprender a surfar nela, com lucidez, prudência e coragem.
E se este resumo chamou sua atenção, recomento que você leia o livro na íntegra. Trata-se de uma leitura oportuna, instigante e enriquecedora sob a ótica de ampliação do nosso repertório acerca da tecnologia e de seus impactos para a vida em sociedade.
Marcia AmorimConselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco. Women Corporate Directors Member.



Comentários