Reputação e marca pessoal: como andam esses ativos estratégicos na sua trajetória profissional?
- Marcia Amorim
- há 20 minutos
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Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation – ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco.

Em um ambiente de negócios cada vez mais exposto, conectado e transparente, reputação e marca pessoal deixaram de ser temas periféricos para se tornarem ativos estratégicos da vida profissional. Para executivos e conselheiros, esses atributos influenciam diretamente a credibilidade, a legitimidade para liderar, a capacidade de influência e, em muitos casos, a própria sustentabilidade da carreira ao longo do tempo. Embora frequentemente utilizados como sinônimos, reputação e marca pessoal não são a mesma coisa. Compreender suas diferenças, a relação entre elas e entender como são construídas — ou destruídas — é fundamental para quem ocupa ou aspira ocupar posições de alta responsabilidade. Trata-se de uma jornada e não apenas de um único passo.
A reputação está associada à percepção coletiva construída ao longo do tempo. Ela é resultado da soma entre comportamentos observáveis, decisões tomadas, coerência ética, qualidade das entregas e a forma como o profissional lida com pessoas, conflitos e responsabilidades. Em outras palavras, reputação é aquilo que os outros dizem sobre você quando você não está presente.
Charles Fombrun, referência mundial no tema, define reputação como uma avaliação coletiva baseada no desempenho passado e nas expectativas futuras. Já a marca pessoal diz respeito à narrativa consciente que o profissional constrói sobre quem ele é, quais são seus valores, suas competências distintivas e a contribuição que entrega ao mercado.
O conceito foi popularizado por Tom Peters no artigo “The Brand Called You” (A marca chamada você), ao defender que cada profissional deve gerir sua carreira como uma marca, com identidade, posicionamento e proposta de valor claros.Enquanto a reputação é construída predominantemente pelo olhar externo, a marca pessoal envolve intencionalidade, estratégia e comunicação.
Na prática, a reputação vem primeiro. Ela nasce da vivência concreta, do comportamento consistente e das escolhas feitas ao longo do tempo. A marca pessoal deve ser uma expressão autêntica dessa reputação, e não uma tentativa de maquiagem ou sobreposição artificial. Quando a marca pessoal não encontra lastro na reputação, cria-se uma dissonância perigosa. Executivos experientes, conselheiros e investidores reconhecem rapidamente quando o discurso não se sustenta na prática.
Estudos da Harvard Business Review sobre liderança autêntica reforçam que credibilidade se constrói quando há alinhamento entre valores declarados e comportamentos observados.A construção de uma reputação sólida não ocorre por acaso. Ela é resultado de escolhas conscientes e repetidas ao longo do tempo. Começa pela clareza de valores e princípios, segue pela consistência de comportamento, pela excelência nas entregas e pela qualidade das relações estabelecidas. A maneira como o profissional trata pares, subordinados, conselheiros e demais stakeholders deixa marcas profundas.
A pesquisa Edelman Trust Barometer demonstra que confiança está diretamente ligada à percepção de integridade, respeito e competência.
Outro elemento central é a capacidade de responsabilização e aprendizado. Assumir erros, aprender com eles e evoluir fortalece a reputação. Transferir culpas, negar fatos ou minimizar impactos fragiliza rapidamente a credibilidade.
Com uma reputação bem construída, a marca pessoal passa a ser um instrumento de posicionamento estratégico. Estabelecer uma marca pessoal sólida exige clareza sobre a identidade profissional, definição da proposta de valor e construção de uma narrativa coerente e autêntica.
Para executivos e conselheiros, isso envolve refletir sobre os temas nos quais são reconhecidos como referência, o tipo de contribuição que oferecem e o legado que desejam construir.A presença e a visibilidade devem ser exercidas com propósito. Participação em conselhos, fóruns, eventos, produção de artigos e atuação em redes profissionais precisam reforçar o posicionamento escolhido, e não dispersá-lo.
No mundo digital, a coerência entre comportamento offline e online tornou-se um fator crítico. Posturas inadequadas em ambientes digitais podem comprometer, em minutos, reputações construídas ao longo de décadas. Alguns fatores comprometem de forma significativa reputação e marca pessoal. Entre eles estão a incoerência entre discurso e prática, fragilidade ética ou conivência com desvios, posturas autoritárias ou desrespeitosas, falta de transparência em decisões relevantes, exposição inadequada em redes sociais e associações realizadas sem avaliação prévia de riscos.
Estudos da PwC sobre confiança e liderança apontam que crises reputacionais individuais afetam não apenas o profissional, mas também as organizações às quais ele está vinculado, especialmente quando ocupa posições de liderança e governança.
Para executivos e conselheiros, reputação e marca pessoal não são acessórios de carreira, mas ativos estratégicos de longo prazo. A reputação se constrói na prática cotidiana; a marca pessoal traduz essa prática em posicionamento claro e reconhecível. Em um contexto no qual confiança, integridade e coerência se tornaram diferenciais competitivos, gerir conscientemente esses atributos é parte indissociável do exercício da liderança responsável.
Referências
· Fombrun, C. Reputation: Realizing Value from the Corporate Image. Harvard Business School Press.
· Peters, T. The Brand Called You. Fast Company.
· George, B. Authentic Leadership. Harvard Business School Press.
· Harvard Business Review. Artigos sobre liderança autêntica e credibilidade.
· Edelman. Trust Barometer.
· PwC. Building Trust in Leadership.



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