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As várias versões de um mesmo fato: o perigo de acreditar que conhecemos toda a história

Marcia Amorim
há 11 minutos
5 min de leitura

Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation – ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco. Women Corporate Directors – WCD Member.


Como nossas crenças, experiências e emoções influenciam a interpretação da realidade e por que escutar diferentes perspectivas pode transformar a qualidade das nossas escolhas?



Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.
Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.

Há uma diferença importante entre aquilo que aconteceu, aquilo que percebemos que aconteceu e aquilo que contamos sobre o que aconteceu. Embora essas dimensões pareçam semelhantes, nem sempre coincidem. E é justamente nessa distância entre o fato, a percepção e a narrativa que se encontram algumas das principais causas de conflitos, julgamentos precipitados e escolhas equivocadas.

Duas pessoas podem vivenciar a mesma situação e apresentar relatos significativamente diferentes. Ambas podem acreditar sinceramente que estão dizendo a verdade. E ambas podem estar revelando apenas uma parte de uma realidade mais complexa.

Isso acontece porque não interpretamos os acontecimentos apenas com aquilo que observamos, mas também com nossa história, nossas crenças, nossos interesses, nossas emoções e nossas expectativas.

A psicologia cognitiva demonstra que utilizamos atalhos mentais para interpretar informações e tomar decisões. Daniel Kahneman e Amos Tversky, em estudos sobre heurísticas e vieses cognitivos, demonstraram como esses mecanismos, embora necessários para simplificar julgamentos, podem produzir erros sistemáticos.

O viés de confirmação, por exemplo, nos leva a valorizar informações que reforçam nossas convicções e a desconsiderar aquelas que as contradizem. Se confiamos em determinada pessoa, podemos interpretar favoravelmente suas atitudes. Se temos uma impressão negativa sobre ela, um comportamento semelhante pode adquirir um significado completamente diferente.

O fato pode ser o mesmo. A interpretação, não.

E quantas vezes percebemos que estamos procurando compreender uma situação quando, na realidade, estamos apenas buscando argumentos para confirmar aquilo em que já acreditamos?

O perigo de decidir com base em uma única versão

Na vida cotidiana, somos constantemente convidados a formar opiniões e tomar decisões a partir de narrativas construídas por outras pessoas. Um comentário sobre alguém, uma notícia compartilhada, um desentendimento familiar, uma divergência entre amigos ou uma situação profissional podem desencadear julgamentos antes mesmo de conhecermos os acontecimentos em sua totalidade.

O problema não está necessariamente na intenção de quem relata. Uma pessoa pode descrever sinceramente aquilo que acredita ter acontecido e, ainda assim, apresentar uma interpretação incompleta ou distorcida pela própria experiência emocional.

Quem se sentiu desrespeitado pode atribuir ao outro uma intenção de ofender que talvez não tenha existido. Quem acredita ter agido corretamente pode desconsiderar os efeitos de seu comportamento. Quem já possui uma opinião formada sobre alguém pode selecionar, mesmo involuntariamente, apenas os acontecimentos que a confirmam.

Uma narrativa não precisa ser falsa para nos conduzir a uma conclusão equivocada. Basta que seja incompleta.

O risco aumenta quando transformamos a primeira versão recebida em verdade definitiva. A partir desse momento, informações posteriores podem passar a ser avaliadas não pelo que revelam, mas pela capacidade de confirmar nosso julgamento inicial.

Assim, relações podem ser rompidas, reputações comprometidas, oportunidades desperdiçadas e escolhas importantes realizadas com base em uma compreensão parcial da realidade.

Considerar diferentes perspectivas é ampliar a qualidade das escolhas

Conhecer diferentes versões não significa admitir que todas sejam igualmente verdadeiras. Existem fatos verificáveis, evidências consistentes e interpretações que podem ser confrontadas.

A importância de considerar diferentes perspectivas está justamente em ampliar nossa capacidade de distinguir o que efetivamente aconteceu daquilo que foi interpretado, presumido ou emocionalmente experimentado.

Quando ouvimos apenas uma versão, enxergamos o acontecimento pelos filtros de quem o relata. Quando buscamos outras perspectivas, aumentamos a possibilidade de identificar aspectos ignorados, compreender circunstâncias e reconhecer explicações alternativas.

Isso exige disposição para formular perguntas que nem sempre fazemos: O que realmente sabemos? O que estamos presumindo? Que informações estão faltando? Que interesses ou experiências podem ter influenciado o relato? O que poderia demonstrar que nossa interpretação inicial está equivocada?

Essa postura não elimina a possibilidade de erro, mas reduz o risco de transformar impressões em certezas.

A qualidade de nossas escolhas depende não apenas das informações que recebemos, mas também da nossa capacidade de questioná-las.

O papel da escuta ativa: compreender antes de julgar

Se nossas interpretações são influenciadas por crenças e experiências, a escuta ativa representa um caminho importante para ampliar nossa compreensão.

Escutar verdadeiramente não significa concordar, justificar comportamentos ou renunciar ao próprio julgamento. Significa demonstrar interesse genuíno em compreender o que está sendo comunicado antes de formular conclusões.

Quando escutamos apenas para responder, contestar ou confirmar nossas convicções, perdemos a oportunidade de conhecer aspectos da realidade que ainda desconhecemos.

A escuta ativa exige atenção às palavras, às emoções e ao contexto, mas também capacidade de diferenciar fatos de interpretações e sentimentos de intenções atribuídas.

Em pesquisa publicada em 2024 no Journal of Personality and Social Psychology, Guy Itzchakov e colaboradores identificaram que uma escuta de alta qualidade pode reduzir a defensividade e favorecer maior abertura à reconsideração de posições em situações de discordância.

Essa capacidade é especialmente relevante nos conflitos, quando a necessidade de defender a própria versão frequentemente se sobrepõe à disposição para compreender a perspectiva do outro.

Escutar não significa abrir mão de nossas convicções. Significa reconhecer que elas podem não ser suficientes para explicar toda a realidade.

A maturidade de mudar de opinião

Talvez um dos maiores obstáculos à compreensão dos acontecimentos não seja a falta de informações, mas nossa resistência em reconhecer que podemos estar errados.

Reconsiderar uma opinião pode exigir admitir que julgamos alguém injustamente, ignoramos evidências, atribuímos intenções inexistentes ou tomamos decisões com base em premissas equivocadas.

E isso nem sempre é confortável.

Vivemos em uma sociedade na qual posições firmes frequentemente são confundidas com segurança, enquanto mudar de opinião pode ser interpretado como fragilidade ou incoerência.

Entretanto, há uma diferença importante entre firmeza de princípios e rigidez de pensamento.

A primeira permite sustentar valores e critérios. A segunda impede reconhecer novas evidências e aprender com elas.

Mudar de opinião diante de informações mais consistentes não representa necessariamente uma contradição. Pode representar maturidade.

Talvez nunca consigamos interpretar os acontecimentos com absoluta neutralidade. Nossas experiências, crenças e emoções continuarão influenciando a maneira como percebemos o mundo.

Mas podemos aprender a reconhecer essas influências, questionar nossas primeiras impressões e evitar que uma única narrativa determine nossas conclusões.

Podemos substituir julgamentos precipitados por perguntas, certezas inflexíveis por interpretações abertas à revisão e reações imediatas por escolhas mais conscientes.

Afinal, compreender uma situação exige mais do que ouvir uma história convincente. Exige disposição para conhecer aquilo que ainda não sabemos e coragem para reconsiderar aquilo que acreditávamos saber.

Porque, muitas vezes, o maior risco não está na versão que alguém nos contou, mas na rapidez com que decidimos acreditar nela.

E talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer antes de julgar alguém, formar uma opinião ou tomar uma decisão seja:

Quantas escolhas equivocadas já fizemos não porque desconhecíamos os fatos, mas porque acreditávamos conhecer toda a história?


Este artigo é de autoria de Marcia Amorim. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida desde que os créditos sejam devidamente atribuídos à autora.


Referências bibliográficas

TVERSKY, Amos; KAHNEMAN, Daniel. (1974). Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases (Julgamento sob incerteza: heurísticas e vieses). Science, 185(4157), 1124–1131. https://doi.org/10.1126/science.185.4157.1124

NICKERSON, Raymond S. (1998). Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises (Viés de confirmação: um fenômeno disseminado em muitas manifestações). Review of General Psychology, 2(2), 175–220. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.2.175

ITZCHAKOV, Guy et al. (2024). Listening to Understand: The Role of High-Quality Listening on Speakers’ Attitude Depolarization During Disagreements (Escutar para compreender: o papel da escuta de alta qualidade na redução da polarização de atitudes durante discordâncias). Journal of Personality and Social Psychology, 126(2), 213–239. https://doi.org/10.1037/pspa0000366


 
 
 

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