Aprendizagem contínua: a competência que determinará quem continuará relevante na próxima década - parte 1
- Marcia Amorim
- há 1 dia
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Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation (ICF). Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco. Membro da Women Corporate Directors (WCD).

Durante muito tempo, os profissionais foram orientados a buscar conhecimento para conquistar uma boa formação, construir uma carreira sólida e, finalmente, alcançar um estágio de estabilidade profissional. O pressuposto era simples: aprender bastante no início da vida permitiria trabalhar durante décadas apoiado naquele patrimônio intelectual acumulado. Essa lógica funcionou relativamente bem em um mundo onde as mudanças ocorriam em ritmo gradual, os modelos de negócios permaneciam estáveis por muitos anos e a experiência acumulada representava, quase sempre, uma vantagem competitiva crescente.
Essa realidade deixou de existir.
Hoje, o conhecimento envelhece em uma velocidade sem precedentes. Tecnologias surgem, evoluem e se tornam obsoletas em poucos anos. Modelos de gestão são continuamente revisados. Novas regulamentações alteram mercados inteiros. A Inteligência Artificial redefine atividades profissionais em praticamente todos os setores da economia. Competências que garantiram excelentes resultados até ontem podem tornar-se insuficientes para responder aos desafios de amanhã.
Nesse novo contexto, a principal pergunta deixou de ser "quanto uma pessoa sabe?" para tornar-se "quão rapidamente ela consegue aprender aquilo que ainda não sabe?"
Essa mudança aparentemente sutil altera profundamente a maneira como organizações avaliam talentos, como lideranças desenvolvem equipes e como cada profissional deve administrar sua própria carreira.
Mais do que nunca, aprender deixou de representar apenas um meio para alcançar resultados. Tornou-se, em si, uma das competências mais importantes para permanecer relevante.
O fim da ideia de conhecimento definitivo
Existe um fenômeno pouco percebido, mas extremamente significativo: a redução do ciclo de vida do conhecimento.
Em diversas áreas profissionais, parte expressiva dos conhecimentos técnicos torna-se rapidamente ultrapassada. Não significa que o conhecimento anterior esteja totalmente errado; significa que ele deixa de ser suficiente para explicar uma realidade que continua evoluindo.
A velocidade das transformações tecnológicas faz com que novos conceitos, ferramentas e práticas sejam incorporados continuamente ao cotidiano das organizações. Ao mesmo tempo, mudanças demográficas, ambientais, geopolíticas e econômicas ampliam ainda mais a complexidade das decisões.
Nesse cenário, diplomas continuam importantes. Certificações permanecem relevantes. Experiência continua agregando valor. Entretanto, nenhum desses elementos, isoladamente, garante empregabilidade ou capacidade de liderança.
O verdadeiro diferencial passa a ser a disposição permanente para continuar aprendendo.
Peter Senge, em A Quinta Disciplina, já afirmava que as organizações capazes de aprender mais rapidamente que seus concorrentes desenvolveriam vantagens competitivas sustentáveis. Décadas depois, essa afirmação tornou-se ainda mais verdadeira. Talvez a única diferença seja que hoje ela também se aplica às pessoas.
Assim como empresas precisam aprender continuamente para permanecer competitivas, profissionais também precisam desenvolver sua própria capacidade de aprendizagem permanente.
Informação não é conhecimento. Conhecimento não é aprendizagem.
Vivemos cercados por informação.
Nunca foi tão fácil acessar livros, cursos, vídeos, artigos científicos, pesquisas, podcasts e plataformas especializadas. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil transformar esse enorme volume de informações em aprendizagem efetiva.
Essa distinção merece atenção.
Receber informação significa entrar em contato com novos conteúdos.
Conhecimento surge quando essas informações passam a ser compreendidas, organizadas e relacionadas com aquilo que já sabemos.
Aprendizagem, por sua vez, acontece somente quando esse conhecimento modifica nossa forma de pensar, decidir ou agir.
Em outras palavras, assistir a dezenas de cursos não significa necessariamente aprender.
Ler centenas de artigos não garante mudança de comportamento.
Participar de inúmeros treinamentos não assegura desenvolvimento profissional.
David Kolb, ao desenvolver sua Teoria da Aprendizagem Experiencial, demonstrou que aprender envolve um ciclo composto por experiência, reflexão, conceituação e experimentação. Sem reflexão, a experiência produz apenas repetição. Sem experimentação, o conhecimento permanece apenas potencial.
Essa diferença ajuda a explicar por que alguns profissionais evoluem rapidamente enquanto outros acumulam certificados sem produzir mudanças significativas em sua atuação.
A competência invisível chamada learning agility
Nos últimos anos, um conceito ganhou enorme relevância entre pesquisadores e organizações: Learning Agility, frequentemente traduzido como agilidade para aprender.
Embora existam diferentes abordagens conceituais, autores como Michael Lombardo, Robert Eichinger e posteriormente diversos estudos da Korn Ferry demonstram que profissionais com elevada learning agility apresentam uma característica comum: conseguem aprender rapidamente diante de situações novas, complexas e incertas.
Não se trata apenas de aprender mais.
Trata-se de aprender melhor.
Esses profissionais demonstram elevada curiosidade intelectual, aceitam feedbacks, experimentam novas soluções, questionam pressupostos e adaptam rapidamente seus comportamentos quando percebem que uma estratégia deixou de produzir resultados.
Essa capacidade torna-se especialmente relevante em posições de liderança.
Executivos enfrentam problemas inéditos com frequência crescente. Muitas das decisões estratégicas atuais não possuem precedentes claros. Esperar encontrar respostas prontas tornou-se uma estratégia cada vez menos eficaz.
Liderar passa, então, a significar aprender continuamente enquanto se decide.
O maior risco da experiência
A experiência continua sendo extremamente valiosa.
Mas ela também pode esconder uma armadilha.
Profissionais muito experientes, justamente por terem acumulado inúmeros sucessos ao longo da carreira, podem desenvolver uma confiança excessiva em modelos mentais que funcionaram muito bem no passado.
Chris Argyris chamou atenção para esse fenômeno ao estudar a aprendizagem organizacional. Segundo ele, indivíduos altamente competentes frequentemente apresentam maior dificuldade para reconhecer quando seus próprios modelos de pensamento precisam ser revistos. Afinal, foram exatamente esses modelos que os conduziram ao sucesso.
Quanto maior o histórico de acertos, maior pode ser a resistência para admitir que o contexto mudou.
Esse mecanismo explica por que algumas organizações extremamente bem-sucedidas fracassam diante de mudanças disruptivas.
Não lhes faltava inteligência.
Não lhes faltavam recursos.
Não lhes faltava experiência.
Faltava disposição para desaprender.
Aprender também significa desaprender
Pouco se fala sobre isso.
Toda aprendizagem significativa exige algum grau de desaprendizagem.
Não no sentido de esquecer completamente aquilo que já sabemos, mas de reconhecer que determinados pressupostos deixaram de explicar adequadamente a realidade.
Edgar Schein utilizava o conceito de survival anxiety (ansiedade pela sobrevivência) para explicar que mudanças profundas normalmente acontecem quando permanecer igual passa a representar um risco maior do que mudar.
Em muitas organizações, pessoas continuam repetindo práticas simplesmente porque sempre funcionaram.
Mas aquilo que trouxe a organização até aqui pode não ser suficiente para levá-la até o próximo estágio.
Desaprender exige humildade intelectual.
Exige reconhecer que experiência não elimina a necessidade de evolução.
Exige compreender que mudar de opinião diante de novas evidências não representa incoerência, mas maturidade.
Talvez uma das maiores demonstrações de inteligência seja exatamente essa capacidade de revisar convicções sem perder consistência.
Inteligência Artificial muda também a forma como aprendemos
Grande parte das discussões sobre Inteligência Artificial concentra-se nos impactos sobre empregos.
Essa preocupação é legítima.
Mas existe outra transformação igualmente profunda.
A IA modifica a própria natureza da aprendizagem.
Quando sistemas inteligentes conseguem localizar informações em segundos, sintetizar documentos, produzir análises preliminares e apoiar decisões, memorizar grandes volumes de conteúdo deixa de representar o principal diferencial competitivo.
O valor desloca-se para competências tipicamente humanas.
Pensamento crítico.
Capacidade de formular boas perguntas.
Raciocínio sistêmico.
Julgamento ético.
Criatividade.
Comunicação.
Integração de conhecimentos provenientes de diferentes áreas.
Em outras palavras, a Inteligência Artificial não reduz a importância da aprendizagem.
Ela altera aquilo que precisamos aprender.
Mais do que acumular informações, torna-se essencial desenvolver capacidade de interpretação, análise crítica, integração de perspectivas e tomada de decisão em ambientes de elevada complexidade.
É justamente nesse ponto que a aprendizagem contínua deixa de ser apenas um requisito para atualização profissional e passa a representar uma competência essencial para a convivência produtiva entre inteligência humana e inteligência artificial...
Aguarde a parte 2 desse tema.


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