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Treinamento, mentoria ou coaching: desenvolver pessoas exige mais do que escolher uma boa metodologia

Marcia Amorim
há 11 minutos
9 min de leitura

Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco. Women Corporate Directors - WCD Member.


Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.
Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.

Quando identificamos uma lacuna de competência em um profissional, qual costuma ser a primeira resposta da organização?

Frequentemente, treinamento.

Quando alguém demonstra potencial para posições maiores, aparece outra alternativa: mentoria. Quando o desafio envolve liderança, comportamento, carreira ou desempenho executivo, surge o coaching.

As três alternativas podem ser valiosas. O problema começa quando são utilizadas como se fossem versões diferentes da mesma solução.

Não são.

Um profissional pode participar de um excelente treinamento e continuar sem conseguir modificar determinado comportamento. Pode receber orientação de um mentor experiente e ainda assim não encontrar suas próprias respostas para uma decisão complexa. Pode realizar um processo de coaching de excelente qualidade para uma necessidade que, na realidade, exigiria simplesmente adquirir determinado conhecimento técnico.

A pergunta mais produtiva, portanto, não é: qual dessas metodologias é melhor?

É outra: qual problema de desenvolvimento precisamos resolver?

Essa distinção parece elementar, mas modifica substancialmente a qualidade dos investimentos em desenvolvimento profissional.

Treinamento é particularmente apropriado quando existe algo que precisa ser aprendido. Uma competência técnica, um processo, uma ferramenta, uma metodologia, uma tecnologia, um conjunto de procedimentos ou conhecimentos necessários para determinado trabalho.

Nesse caso, existe conteúdo a ser transferido ou competência a ser praticada.

O treinamento pode ocorrer presencialmente, virtualmente, individualmente ou em grupo e assumir diferentes formatos. O que o caracteriza não é a sala de aula, mas a existência de objetivos de aprendizagem relativamente definidos.

Se uma empresa implanta um novo sistema de gestão, por exemplo, não deveria contratar um coach para que cada profissional descubra intuitivamente como operá-lo. Há conhecimentos que precisam ser ensinados.

Da mesma maneira, um profissional que assume uma função financeira sem dominar determinada técnica contábil provavelmente precisa primeiro aprender essa técnica.

Isso não diminui a importância do coaching. Apenas respeita a natureza da necessidade.

A McKinsey Academy chama atenção justamente para a combinação de diferentes mecanismos na construção de capacidades. Seus programas utilizam aprendizagem presencial e digital, coaching por especialistas e pares, observação no trabalho, feedback, reflexão e simulações, procurando fazer com que novas competências sejam adquiridas e aplicadas no contexto real do trabalho.

Esse ponto merece atenção.

Aprender não é necessariamente saber aplicar.

Um curso pode ampliar conhecimento sem produzir mudança consistente de comportamento. É por isso que desenvolvimento profissional dificilmente deveria terminar quando o treinamento termina.

A aprendizagem precisa encontrar o trabalho.

A própria McKinsey, ao discutir construção de capacidades, enfatiza a importância de inserir a aprendizagem na rotina e acompanhar não somente conhecimento adquirido, mas mudança comportamental e impacto operacional ou financeiro.

Imagine um gestor participando de um treinamento sobre delegação.

Ele pode compreender perfeitamente os conceitos, responder corretamente a uma avaliação e reconhecer os benefícios de delegar. Na segunda-feira seguinte, porém, diante de uma decisão importante, volta a centralizar tudo.

O problema já não é necessariamente falta de conhecimento.

Pode ser confiança, crença, hábito, medo de perder controle ou dificuldade de aceitar que outra pessoa execute uma tarefa de maneira diferente da sua.

Continuar oferecendo cursos sobre delegação provavelmente terá efeito limitado.

É exatamente por isso que diagnóstico deve preceder metodologia.

A mentoria responde a outra necessidade.

A Association for Talent Development - ATD define mentoria como uma relação colaborativa voltada ao crescimento, aprendizagem e desenvolvimento da carreira, tradicionalmente envolvendo alguém mais experiente que compartilha conhecimento, orientação e perspectivas com o profissional em desenvolvimento. Mentores podem funcionar como referências, interlocutores e fontes de aconselhamento.

Aqui existe uma diferença fundamental.

O mentor possui experiência relevante para compartilhar.

Quem já atravessou determinado território pode ajudar outra pessoa a compreendê-lo.

Um executivo que se prepara para assumir sua primeira posição de CEO pode beneficiar-se enormemente da mentoria de alguém que já viveu essa experiência. Não apenas para conhecer responsabilidades formais, mas para compreender aspectos que dificilmente aparecem em descrições de cargo: relacionamento com conselho, solidão decisória, gestão de stakeholders (partes interessadas), construção de legitimidade, escolhas de agenda e leitura política da organização.

Da mesma forma, alguém que pretende iniciar uma carreira como conselheiro pode aprender com quem já percorreu esse caminho.

O mentor pode dizer: “na minha experiência...”, “eu observaria este risco...”, “quando passei por situação semelhante...”, “considere conversar com...”.

Isso não significa que o mentor determine aquilo que o profissional deve fazer.

Uma mentoria madura não deveria transformar experiência passada em receita universal.

Contextos mudam. Pessoas são diferentes. Organizações possuem culturas distintas. E aquilo que funcionou para o mentor talvez não funcione para o mentorado.

O valor está menos em copiar a trajetória do outro e mais em utilizar sua experiência para ampliar o próprio repertório.

A mentoria também pode desempenhar papel relevante na transmissão de conhecimento organizacional. Pesquisas da ATD apontam, entre os benefícios associados aos programas formais de mentoria, desenvolvimento profissional, compreensão da cultura organizacional, construção de novas perspectivas e transferência de conhecimento.

Isso é particularmente relevante em processos de sucessão.

Quando profissionais experientes deixam uma organização sem que conhecimentos críticos tenham sido compartilhados, não perdemos apenas pessoas. Podemos perder memória institucional, redes de relacionamento, critérios de decisão e conhecimento acumulado ao longo de décadas.

Mas existe uma terceira situação.

O profissional possui conhecimento. Possui experiência. Conhece o contexto. E, ainda assim, encontra-se diante de uma questão para a qual não precisa necessariamente de alguém dizendo o que fazer.

Precisa pensar melhor.

É aqui que o coaching pode assumir papel distinto.

O Código de Ética da International Coaching Federation - ICF, vigente desde 1º de abril de 2025, define coaching como uma parceria com clientes em um processo provocativo e criativo destinado a inspirá-los a maximizar seu potencial pessoal e profissional.

A palavra parceria é particularmente importante.

No coaching profissional, o coach não deveria assumir automaticamente o papel de especialista que apresenta ao cliente a resposta correta.

Seu trabalho envolve criar condições para reflexão, ampliar perspectivas, desafiar pressupostos, explorar alternativas, aumentar consciência e favorecer que o próprio cliente assuma responsabilidade pelas escolhas e ações decorrentes do processo.

Essa característica diferencia substancialmente coaching de mentoria.

Se alguém me procura perguntando como conduzi determinada situação em minha própria carreira e eu utilizo minha experiência para aconselhá-lo, provavelmente estou atuando muito mais próximo do papel de mentor.

Se minha atuação consiste em ajudá-lo a investigar como interpreta a situação, quais pressupostos orientam sua análise, quais alternativas ainda não percebeu, o que pretende alcançar e que decisões está disposto a assumir, a conversa aproxima-se mais do coaching.

As fronteiras nem sempre são absolutas no cotidiano das organizações, razão pela qual a clareza sobre o papel exercido é tão importante.

O próprio fato de a ICF distinguir formalmente papéis como coach, mentor coach e trainer (instrutor) em seu Código de Ética reforça que estamos tratando de funções profissionais diferentes.

O CIPD - Chartered Institute of Personnel and Development também diferencia coaching e mentoria. Segundo a instituição, o coaching tende a concentrar-se em habilidades e objetivos específicos e possui natureza predominantemente não diretiva, enquanto a mentoria utiliza a experiência e o conhecimento de alguém mais experiente para apoiar o desenvolvimento de outro profissional e costuma envolver relações de prazo mais longo.

Na prática, podemos pensar em três perguntas.

Existe algo que a pessoa ainda precisa aprender? Provavelmente há espaço para treinamento.

Existe uma experiência relevante que outra pessoa pode compartilhar para ajudá-la a navegar determinado contexto ou etapa profissional? Provavelmente há espaço para mentoria.

Existe uma questão na qual a pessoa precisa ampliar consciência, desafiar sua própria maneira de pensar, explorar possibilidades e construir suas próprias respostas? Pode haver espaço para coaching.

O desafio aumenta porque necessidades profissionais raramente aparecem isoladas.

Imagine uma executiva promovida pela primeira vez para uma posição de liderança.

Ela pode precisar de treinamento para aprender determinados processos de gestão de pessoas. Pode beneficiar-se de uma mentora que compartilhe experiências sobre a passagem de especialista para líder. E pode utilizar coaching para trabalhar questões como identidade profissional, influência, delegação, tomada de decisão, autoconfiança ou novos padrões de comportamento.

As metodologias não precisam competir.

Podem ser complementares.

O erro está em esperar que uma única delas resolva todas as dimensões do desenvolvimento.

Esse princípio também deveria orientar as diferentes fases da carreira.

No início da trajetória profissional, existe frequentemente uma necessidade mais intensa de aquisição de conhecimento, domínio técnico, compreensão dos processos e construção de repertório. Treinamentos estruturados, aprendizagem no trabalho e acompanhamento próximo podem ser particularmente relevantes.

À medida que a carreira avança, os desafios tornam-se progressivamente menos definidos.

As perguntas deixam de ser apenas “como faço isso?” e começam a incluir “como influencio?”, “como escolho?”, “como lidero?”, “como navego neste contexto?”, “que carreira quero construir?” e “que impacto desejo produzir?”.

Nesse estágio, mentoria e coaching podem ganhar relevância justamente porque o desenvolvimento já não depende exclusivamente de adquirir conhecimento.

Mas seria equivocado estabelecer uma sequência rígida em que treinamento pertence aos jovens, mentoria aos profissionais intermediários e coaching aos executivos.

Um CEO pode precisar de treinamento para compreender uma nova tecnologia. Um profissional em início de carreira pode beneficiar-se de coaching. Um executivo extremamente experiente pode precisar de mentoria para ingressar em um campo no qual ainda é iniciante.

A metodologia deve acompanhar a necessidade, não a idade nem o cargo.

Há ainda uma quarta dimensão que não deveria ser esquecida: aprendizagem por experiência.

Talvez algumas competências simplesmente não possam ser desenvolvidas adequadamente sem que a pessoa tenha oportunidade de praticá-las.

Ninguém aprende integralmente liderança apenas lendo sobre liderança.

Da mesma forma, negociação, influência, tomada de decisão sob pressão, comunicação executiva e gestão de conflitos exigem aplicação.

Pesquisas do CIPD sobre aprendizagem colaborativa no trabalho mostram a relevância da colaboração entre pares e situam coaching, mentoria e aprendizagem autodirigida entre métodos importantes de desenvolvimento profissional.

Por isso, programas robustos combinam conhecimento, prática, reflexão, feedback e aplicação.

Desenvolvimento profissional não é um evento.

É um processo.

Essa distinção deveria interessar tanto às organizações quanto aos próprios profissionais.

Para a empresa, escolher a metodologia inadequada significa investir recursos sem necessariamente resolver a lacuna que originou o investimento.

Para o profissional, significa assumir responsabilidade sobre o próprio desenvolvimento e aprender a identificar aquilo de que realmente precisa.

Antes de pedir um curso, talvez valha perguntar: falta conhecimento ou falta aplicação?

Antes de procurar um mentor: preciso da experiência de alguém ou estou procurando alguém que tome a decisão por mim?

Antes de contratar coaching: estou disposto a refletir, questionar meus próprios pressupostos e assumir responsabilidade pelas mudanças que decidir realizar?

Essas perguntas tornam o desenvolvimento mais intencional.

E existe uma última consideração importante.

Nenhuma metodologia substitui a disposição para aprender.

Podemos oferecer o melhor treinamento, aproximar alguém de um mentor extraordinário ou contratar um excelente coach. Se o profissional não estiver disposto a rever práticas, experimentar novos comportamentos e assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento, o alcance de qualquer intervenção será limitado.

Talvez, portanto, a pergunta central não seja somente qual metodologia utilizar.

A pergunta anterior é ainda mais importante:

o que precisa mudar - conhecimento, repertório, comportamento, perspectiva ou capacidade de agir?

Somente depois dessa resposta deveríamos decidir como desenvolver.

Treinamento pode ensinar.

Mentoria pode compartilhar caminhos e ampliar repertório.

Coaching pode provocar consciência, escolhas e ação.

Experiência pode transformar tudo isso em competência aplicada.

O desenvolvimento mais consistente provavelmente acontece quando organizações e profissionais deixam de tratar essas alternativas como produtos de uma prateleira e passam a utilizá-las como instrumentos diferentes para necessidades diferentes.

E fica a reflexão provocativa:

quando sua organização identifica uma necessidade de desenvolvimento, procura primeiro compreender o que a pessoa realmente precisa aprender ou simplesmente escolhe a metodologia que já está acostumada a oferecer?


Nota de Propriedade Intelectual - Este artigo é de autoria de Marcia Amorim. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida desde que os créditos sejam devidamente atribuídos à autora.


Referências

• International Coaching Federation (ICF). ICF Code of Ethics. Código vigente desde 1º de abril de 2025; inclui a definição institucional de coaching e a distinção de papéis no ecossistema da ICF.

• CIPD - Chartered Institute of Personnel and Development. Coaching and mentoring. Atualizado em 11 de agosto de 2025. Apresenta definições, distinções e aplicações de coaching e mentoria como parte de uma estratégia de aprendizagem e desenvolvimento.

• Association for Talent Development (ATD). What Is Mentoring? Define mentoria e discute sua aplicação ao crescimento, aprendizagem e desenvolvimento de carreira.

• Association for Talent Development (ATD). Coaching in Organizations. Aborda o coaching como instrumento para desenvolvimento, desempenho e crescimento profissional e sua distinção em relação à mentoria.

• Association for Talent Development (ATD). Research on formal mentoring programs. Pesquisa com profissionais de desenvolvimento de talentos sobre benefícios e práticas de programas formais de mentoria.

• McKinsey & Company. McKinsey Academy. Aborda construção de capacidades por meio da combinação de aprendizagem, coaching, observação, feedback, reflexão, simulações e aplicação no trabalho.

• McKinsey & Company. Para uma transformação de sucesso, invista em capacitação. Discute aprendizagem experiencial, aplicação, acompanhamento de mudança comportamental e incorporação da aprendizagem à rotina de trabalho.

• CIPD. How L&D can create value: Focusing on social collaborative learning. Analisa aprendizagem colaborativa, coaching, mentoria, aprendizagem autodirigida e colaboração entre pares no desenvolvimento profissional.


 
 
 

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