Quando saber usar inteligência artificial deixa de ser diferencial e começa a se tornar requisito básico.
Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco. Women Corporate Directors - WCD Member.

Durante alguns anos, saber utilizar inteligência artificial foi uma competência capaz de diferenciar profissionais. Quem dominava ferramentas generativas, experimentava automações ou utilizava IA para pesquisar, analisar dados e produzir conteúdos parecia estar alguns passos à frente.
Talvez estejamos entrando em outra fase.
A inteligência artificial começa a deixar de ser apenas um diferencial e passa, progressivamente, a integrar o repertório básico esperado pelo mercado de trabalho. Algo semelhante ocorreu com a informática: houve um tempo em que dominar planilhas, apresentações digitais ou ferramentas de busca representava vantagem competitiva. Depois, essas habilidades simplesmente passaram a ser consideradas parte natural do trabalho.
Os sinais dessa mudança já aparecem nas pesquisas. A McKinsey identificou crescimento expressivo na demanda por fluência em inteligência artificial nos Estados Unidos e na América Latina, inclusive em áreas que não pertencem tradicionalmente ao setor de tecnologia. Isso não significa que todos precisarão tornar-se especialistas em IA. Significa que profissionais de diferentes áreas precisarão aprender a trabalhar com sistemas inteligentes dentro das próprias especialidades.
Um advogado não precisa programar modelos de linguagem, mas poderá utilizá-los para pesquisar documentos e organizar argumentos. Um profissional de recursos humanos poderá aplicá-los em recrutamento, análise de dados e desenvolvimento. Um executivo poderá utilizá-los na construção de cenários e no apoio às decisões. No varejo, aplicações já alcançam previsão de demanda, sortimento, estoques e comportamento do consumidor.
A questão, portanto, não é simplesmente “saber usar IA”, mas saber integrá-la ao trabalho de forma produtiva e responsável.
Essa diferença é importante.
Digitar uma pergunta em uma ferramenta é simples. Formular corretamente um problema, oferecer contexto, avaliar criticamente a resposta, identificar inconsistências, verificar informações e transformar o resultado em uma decisão de qualidade exige capacidades muito mais sofisticadas.
É justamente por isso que a expressão AI fluency (fluência em inteligência artificial) ganha relevância. Fluência significa compreender possibilidades, limitações e riscos e saber quando, como e para quê utilizar a tecnologia.
Curiosamente, quanto mais a IA avança, mais algumas competências humanas ganham importância.
Pensamento crítico, julgamento, capacidade de resolver problemas, colaboração, comunicação, criatividade e responsabilidade continuam centrais. A diferença é que passarão a ser exercidos em interação crescente com sistemas inteligentes.
O profissional deixa de executar sozinho todas as etapas e passa a decidir o que delegar à tecnologia, o que revisar, o que interpretar e pelo que continuará responsável.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes do trabalho contemporâneo.
Quanto mais fácil se torna produzir uma resposta, mais importante se torna avaliar sua qualidade. Quanto mais rápido é possível gerar uma análise, mais necessário se torna compreender as premissas utilizadas. E quanto maior a capacidade dos algoritmos, mais relevante será saber quando não confiar neles.
Não basta, portanto, aprender a perguntar à inteligência artificial. Será necessário aprender a questioná-la.
As empresas também entram em uma nova etapa. Na primeira fase da IA generativa, muitas concentraram esforços na aquisição de ferramentas e na realização de projetos-piloto. Agora surge um desafio mais complexo: transformar acesso em competência e competência em valor.
A tecnologia pode automatizar uma tarefa, mas o ganho real aparece quando as pessoas utilizam o tempo liberado para melhorar processos, analisar informações, compreender clientes, inovar e tomar decisões melhores.
Por isso, as organizações precisarão ir além de oferecer cursos sobre IA. O aprendizado mais relevante provavelmente acontecerá quando profissionais começarem a aplicar a tecnologia a problemas reais: atividades que podem ser eliminadas, análises que podem ser aceleradas, decisões que podem ser enriquecidas e conhecimentos que podem tornar-se mais acessíveis.
Também existe uma oportunidade adicional. A inteligência artificial pode funcionar como instrumento de aprendizagem e mobilidade profissional, reduzindo a distância entre aquilo que uma pessoa já sabe e os conhecimentos necessários para assumir novas responsabilidades. Isso pode tornar-se especialmente relevante em um mercado no qual funções mudam rapidamente e carreiras tendem a ser menos lineares.
O debate econômico internacional começa a refletir essa preocupação. Em outubro de 2026, o Fundo Monetário Internacional voltou a destacar que a IA pode ampliar o crescimento econômico, mas ressaltou que seus benefícios dependerão da capacidade de desenvolver as competências necessárias e administrar adequadamente a transição da força de trabalho.
A questão deixa, portanto, de ser apenas se a inteligência artificial produzirá ganhos.
Passa a ser: quem estará preparado para capturá-los?
Para os profissionais, uma reflexão prática pode começar pela observação do próprio trabalho. Que tarefas podem ser realizadas com apoio da IA? Quais competências humanas passam a valer mais quando essas tarefas são automatizadas? E, principalmente, quais novas atividades tornam-se possíveis justamente porque a tecnologia passou a existir?
Talvez seja nesse terceiro espaço que estejam algumas das melhores oportunidades.
O mercado provavelmente chegará rapidamente a um ponto em que afirmar “sei usar inteligência artificial” deixará de chamar atenção. Será tão comum quanto dizer hoje que alguém sabe utilizar a internet.
A pergunta passará a ser outra:
o que você consegue fazer melhor porque sabe trabalhar com inteligência artificial?
E, depois dela, talvez venha a pergunta realmente decisiva:
que valor você consegue criar combinando aquilo que a tecnologia faz bem com aquilo que você faz melhor do que ela?
É essa combinação — e não uma competição entre pessoas e máquinas — que provavelmente determinará grande parte da empregabilidade nos próximos anos.
Para refletir...
Se o domínio básico da inteligência artificial se tornar apenas um requisito esperado pelo mercado, qual competência continuará tornando você diferente?
Nota de Propriedade Intelectual — Este artigo é de autoria de Marcia Amorim. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida desde que os créditos sejam devidamente atribuídos à autora.
Referências: McKinsey & Company, AI fluency: The next foundation of US economic competitiveness (2026); McKinsey Global Institute, Agents, robots, and us: How AI reshapes work and skills in Latin America (2026); Deloitte e The Manufacturing Institute, estudos sobre IA e desenvolvimento de competências (2026); World Economic Forum, Future of Jobs Report 2025; Reuters, cobertura das declarações do FMI sobre IA, competências e crescimento econômico, outubro de 2026.



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