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A nova desigualdade do trabalho pode não ser entre quem usa ou não inteligência artificial. Será entre quem consegue se mover e quem fica parado...

Marcia Amorim
há 1 dia
8 min de leitura

Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco. Women Corporate Directors - WCD Member.



Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.

Durante boa parte dos últimos anos, a discussão sobre inteligência artificial e mercado de trabalho foi dominada por uma pergunta quase inevitável: quais profissões desaparecerão?

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

A transformação que começa a ganhar contornos mais claros não parece dividir simplesmente o mercado entre profissões que sobreviverão e profissões que deixarão de existir. Ela poderá produzir uma divisão muito mais sutil — e talvez mais desigual — entre profissionais capazes de se deslocar para atividades em crescimento e aqueles que permanecerão vinculados a funções, competências ou modelos de trabalho cuja demanda está diminuindo.

Em outras palavras, o risco pode não estar apenas em perder o emprego.

Pode estar em perder mobilidade.

Essa hipótese ganhou uma dimensão concreta em setembro de 2026. Uma análise do Banco Interamericano de Desenvolvimento estima que uma adoção ampla da inteligência artificial poderá elevar o Produto Interno Bruto da América Latina e do Caribe em 5,1% ao longo de uma década. Até aqui, uma excelente notícia.

Mas há outra parte do estudo que merece muito mais atenção de profissionais, empresas e governos.

Segundo o BID, se os trabalhadores conseguirem se deslocar para áreas de trabalho em expansão, os salários poderão aumentar entre 2,3% e 5,3% ao longo de dez anos. Se essa mobilidade não acontecer, os salários poderão cair entre 13,5% e 20,9%.

A diferença entre os dois cenários é enorme.

E talvez ela ajude a compreender uma das transformações mais importantes que ocorrerão no mercado de trabalho durante a próxima década: empregabilidade poderá depender cada vez menos da capacidade de preservar uma determinada função e cada vez mais da capacidade de transitar entre funções.

Isso muda profundamente a maneira como pensamos carreira.

Durante muito tempo, estabilidade profissional esteve associada à permanência. Construía-se conhecimento em determinada área, acumulava-se experiência, conquistava-se senioridade e, progressivamente, avançava-se dentro de uma trajetória relativamente previsível.

A nova dinâmica parece menos linear.

Tecnologias mudam tarefas. Empresas redesenham estruturas. Algumas atividades são automatizadas. Outras passam a exigir competências diferentes. Novas ocupações surgem na interseção entre disciplinas que antes funcionavam separadamente.

Nesse ambiente, talvez a pergunta “qual é a sua profissão?” comece a perder alguma relevância diante de outra: “para quais problemas você consegue transferir aquilo que sabe fazer?”.

Essa distinção é importante.

Uma pessoa pode ter vinte anos de experiência e, ainda assim, possuir baixa mobilidade profissional se todo o seu repertório estiver associado a um conjunto muito específico de tarefas.

Outra pode ter menos experiência acumulada, mas conseguir transportar conhecimentos entre contextos, aprender rapidamente, compreender tecnologias emergentes e conectar competências técnicas, analíticas e relacionais.

A primeira possui experiência.

A segunda possui experiência e capacidade de deslocamento.

O mercado poderá atribuir valores bastante diferentes a essas duas condições.

Um relatório publicado pela McKinsey em 29 de setembro reforça essa perspectiva. Ao analisar o futuro do trabalho nos Estados Unidos, a consultoria estima que aproximadamente 11 milhões de trabalhadores atualmente empregados em ocupações em declínio poderão precisar migrar para novas funções na próxima década. Dependendo da velocidade da automação e de seus efeitos sobre a demanda de trabalho, esse número poderia variar de seis milhões a 16 milhões. A análise também sugere que a economia norte-americana poderá criar mais empregos do que aqueles substituídos pela automação, mas os novos postos tenderão a exigir competências diferentes e, em muitos casos, mais sofisticadas.

Esse ponto merece atenção.

O problema pode não ser simplesmente falta de empregos.

Pode ser a distância entre os empregos que diminuem e aqueles que crescem.

E essa distância é medida em competências.

Um profissional administrativo cuja função começa a incorporar automação talvez não precise necessariamente transformar-se em cientista de dados. Essa interpretação simplifica excessivamente a discussão sobre requalificação.

Talvez precise aprender a utilizar ferramentas de inteligência artificial, interpretar informações, melhorar processos, trabalhar com dados, comunicar recomendações, compreender melhor o negócio e assumir atividades de maior julgamento.

A transição pode ocorrer para uma função próxima.

Mas ela exige movimento.

Esse fenômeno é particularmente relevante para a América Latina.

Uma análise do BID publicada em 2026 examinou mais de 6,2 milhões de vagas digitais em 15 países da região, incluindo o Brasil, entre 2022 e 2025. Os resultados mostram que ocupações administrativas, comerciais e de serviços ainda representam parcela importante da demanda, enquanto setores intensivos em conhecimento, como serviços profissionais, finanças e informação, ampliam a procura por competências digitais. As vagas relacionadas à inteligência artificial cresceram rapidamente em 2025.

Outra publicação do BID registra que as competências relacionadas à inteligência artificial estão entre as de crescimento mais acelerado na região e que, em meados de 2025, aproximadamente 7% das vagas analisadas já faziam referência a IA.

O mercado está, portanto, enviando sinais.

A questão é se trabalhadores e organizações estão conseguindo lê-los com antecedência suficiente.

Porque existe uma diferença importante entre requalificação e reação.

Reagir significa perceber que uma função perdeu espaço e somente então começar a procurar alternativas.

Requalificar-se significa observar para onde o trabalho está caminhando antes que a mudança se torne uma emergência.

Talvez essa seja uma das competências profissionais mais importantes dos próximos anos: desenvolver capacidade de antecipação sobre a própria carreira.

Isso não significa perseguir cada nova tecnologia, realizar dezenas de cursos ou tentar dominar todas as tendências que aparecem. A velocidade das mudanças tornaria essa estratégia exaustiva e provavelmente ineficiente.

Significa acompanhar a transformação das tarefas que compõem o próprio trabalho.

Quais delas estão sendo automatizadas?

Quais estão ficando mais importantes?

Quais novas competências aparecem nas vagas da sua área?

Que conhecimentos profissionais começam a ser combinados com tecnologia?

Que atividades passaram a exigir mais julgamento, relacionamento, interpretação ou tomada de decisão?

Essas perguntas ajudam a substituir a ansiedade abstrata sobre “o futuro do trabalho” por uma análise concreta sobre o futuro do próprio trabalho.

Há, porém, uma questão incômoda nessa discussão.

Estamos colocando sobre os profissionais uma responsabilidade que não pode ser exclusivamente deles.

Dizer a milhões de pessoas que precisam se requalificar é relativamente fácil.

Criar condições para que consigam fazê-lo é muito mais difícil.

Aprender exige tempo, acesso, orientação, oportunidade de experimentar novas atividades e, frequentemente, recursos financeiros. Trabalhadores submetidos a jornadas extensas, baixa remuneração ou insegurança profissional possuem menos condições de investir continuamente na própria transição.

Por isso, a mobilidade profissional também precisará se tornar responsabilidade das organizações.

Uma iniciativa anunciada nos Estados Unidos neste mês ilustra a dimensão que essa agenda começa a assumir. A Verizon anunciou investimento de US$ 70 milhões em um programa de capacitação em inteligência artificial voltado a trabalhadores, pequenas empresas e educadores, com participação de organizações e empresas de tecnologia. A proposta é ampliar o acesso a treinamento prático e relacionado às necessidades de diferentes ocupações.

O movimento é significativo não apenas pelo valor investido.

Ele sinaliza que alfabetização e capacitação em inteligência artificial começam a ser tratadas como infraestrutura de empregabilidade.

No Brasil, há iniciativas na mesma direção. O programa Reskilling Revolution (Revolução da Requalificação), do Fórum Econômico Mundial, informa que o acelerador brasileiro de competências, desenvolvido em colaboração com o SENAI, alcançou 4,4 milhões de pessoas desde 2022 e trabalha com a meta de chegar a oito milhões até 2030.

Mas capacitação, isoladamente, também não resolve o problema.

Uma organização pode oferecer centenas de cursos e continuar impedindo mobilidade interna.

Pode ensinar novas competências e continuar selecionando candidatos apenas pela experiência anterior.

Pode defender aprendizagem contínua e continuar exigindo que cada vaga seja preenchida por alguém que já tenha realizado exatamente aquele trabalho.

Essa contradição deverá entrar na agenda das áreas de gestão de pessoas.

Se as empresas querem profissionais adaptáveis, talvez precisem tornar suas próprias estruturas mais permeáveis à adaptação.

Isso significa olhar para competências transferíveis, ampliar movimentos laterais, permitir experiências temporárias em outras áreas, criar projetos interfuncionais, utilizar mentoria, rever critérios de seleção interna e oferecer oportunidades para que pessoas aprendam realizando atividades novas.

Líderes terão papel decisivo nesse processo.

Um bom líder não deveria apenas avaliar se alguém entrega bem o trabalho atual. Precisará observar se essa pessoa está construindo condições para continuar relevante quando o trabalho atual mudar.

Isso exige conversas diferentes sobre desenvolvimento.

Em vez de perguntar apenas “qual cargo você gostaria de ocupar?”, talvez seja mais produtivo perguntar “que problemas você gostaria de estar preparado para resolver daqui a três anos?”.

A mudança parece pequena.

Não é.

A primeira pergunta organiza carreira ao redor de cargos.

A segunda organiza carreira ao redor de capacidades.

E talvez seja justamente essa mudança de perspectiva que o novo mercado esteja exigindo.

Há ainda uma dimensão social importante. O Índice de Melhores Empregos 2026 do BID mostra que a qualidade do emprego na América Latina atingiu seu maior nível desde o início da série analisada, mas continua insuficiente para grande parcela da população. Em 2024, a informalidade regional permanecia em 69%, e aproximadamente metade da população em idade ativa ainda enfrentava pobreza laboral. O relatório sustenta que o desafio da região não é apenas criar empregos, mas transformar a qualidade dos empregos existentes, fortalecer competências e utilizar a inteligência artificial para elevar produtividade e qualidade do trabalho.

Esse contexto torna a discussão sobre mobilidade ainda mais relevante para o Brasil.

Profissionais altamente qualificados podem atualizar competências por conta própria, acessar cursos internacionais, participar de comunidades profissionais e movimentar-se entre empresas.

Milhões de trabalhadores não possuem as mesmas possibilidades.

Se a transformação tecnológica acelerar sem mecanismos de transição, poderemos produzir uma nova desigualdade: não apenas entre quem possui mais ou menos renda, mas entre quem consegue se deslocar profissionalmente e quem permanece preso a atividades em declínio.

Por isso, talvez seja necessário rever a própria definição de segurança profissional.

Segurança já significou permanecer muitos anos na mesma empresa.

Depois passou a significar possuir competências valorizadas pelo mercado.

Agora poderá significar algo diferente: ter capacidade contínua de aprender, transferir conhecimentos e mover-se antes que o mercado obrigue você a fazê-lo.

Essa é uma mudança relevante também para profissionais experientes.

Quanto maior a trajetória, maior pode ser a tentação de acreditar que a experiência acumulada funciona como proteção contra mudanças.

Nem sempre funciona.

Experiência continua valiosa. Mas seu valor dependerá crescentemente da capacidade de reinterpretá-la em novos contextos.

O profissional experiente que combina repertório com curiosidade, tecnologia e disposição para aprender poderá tornar-se ainda mais valioso.

Aquele que transforma experiência em rigidez poderá descobrir que senioridade e empregabilidade não são sinônimos.

Talvez, portanto, o grande risco profissional da próxima década não seja escolher a profissão errada.

Pode ser permanecer tempo demais exatamente no mesmo lugar enquanto o trabalho ao redor se transforma.

E fica uma reflexão provocativa:

se uma parte relevante das tarefas que você realiza hoje perder valor nos próximos três anos, quais competências que já possui poderão levá-lo para a próxima oportunidade — e quais você precisa começar a construir agora?

Esperar que o mercado responda essa pergunta por você talvez seja uma das escolhas profissionais mais arriscadas dos próximos anos.


Este artigo é de autoria de Marcia Amorim. A reprodução total ou parcial deste conteúdo deverá conter os devidos créditos à autora.


Referências

Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). IDB Group Convenes Heads of State and Technology Leaders to Advance AI Agenda. Setembro de 2026.

McKinsey Global Institute. Workforce in motion: Skills and pathways to future jobs in the United States. 29 de setembro de 2026.

Azuara, Oliver; Jaramillo Vasconez, Oscar Eduardo. Banco Interamericano de Desenvolvimento. ¿Qué trabajos se están creando en América Latina?: análisis de las vacantes laborales electrónicas publicadas en América Latina y el Caribe. Fevereiro de 2026.

Banco Interamericano de Desenvolvimento. Análises econômicas e de mercado de trabalho para América Latina e Caribe, 2026.

Azuara, Oliver; Lugo Ibarra, Mariana; Jaramillo Vasconez, Oscar Eduardo. Banco Interamericano de Desenvolvimento. Índice de melhores empregos 2026: O emprego de qualidade alcança níveis recordes na América Latina, mas ainda não chega para a maioria. Julho de 2026.

World Economic Forum. Reskilling Revolution: Preparing 1 Billion People for Tomorrow’s Economy. Atualização de 2026.

Reuters. Verizon to invest $70 million in AI training effort. 23 de setembro de 2026.


 
 
 

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