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Longevidade de homens e mulheres no século XXI: implicações para o mercado de trabalho

  • Marcia Amorim
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Marcia AmorimMarcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation (ICF). Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco.

A longevidade tornou-se uma variável estrutural do século XXI e um dado incontornável para o mercado de trabalho. O aumento consistente da expectativa de vida altera a composição etária da força de trabalho, pressiona sistemas previdenciários, redefine trajetórias profissionais e exige das organizações novas abordagens para saúde, desempenho e permanência produtiva ao longo do tempo. Esse fenômeno, entretanto, não se distribui de forma homogênea entre homens e mulheres, revelando diferenças persistentes que merecem análise cuidadosa e baseada em evidências.

Em escala global, a população mundial apresenta um leve predomínio masculino, com aproximadamente 50,4% de homens e 49,6% de mulheres, segundo estimativas demográficas internacionais. No Brasil, o cenário é distinto: os dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que 51,5% da população é composta por mulheres e 48,5% por homens, refletindo diretamente o efeito acumulado da maior longevidade feminina ao longo das décadas.

No que se refere à expectativa de vida, o Brasil alcançou em 2023 a média de 76,4 anos ao nascer. Quando desagregado por sexo, observa-se que os homens apresentam expectativa de vida de 73,1 anos, enquanto as mulheres alcançam 79,7 anos, configurando uma diferença de 6,6 anos. Esse diferencial não é episódico nem recente: ele se repete de forma consistente nas séries históricas do IBGE desde meados do século XX.

Um conceito central para compreender essa assimetria é o de sobremortalidade masculina. Sobremortalidade refere-se à ocorrência de taxas de mortalidade sistematicamente mais elevadas em um determinado grupo populacional quando comparado a outro, mesmo considerando contextos semelhantes. No Brasil, a sobremortalidade masculina é particularmente expressiva entre adolescentes e adultos jovens. Em 2023, a mortalidade de homens entre 20 e 24 anos foi mais de quatro vezes superior à das mulheres da mesma faixa etária, fenômeno fortemente associado às chamadas causas externas — como homicídios, acidentes de trânsito, afogamentos e suicídios.

Além das causas externas, pesquisas internacionais e nacionais demonstram que diferenças de comportamento de saúde também influenciam a longevidade. Homens, em média, procuram menos os serviços de atenção primária, realizam menos exames preventivos e apresentam maior exposição histórica a fatores de risco como consumo abusivo de álcool, tabagismo e atividades laborais perigosas. Esses comportamentos produzem efeitos cumulativos que se manifestam de forma mais intensa a partir da meia-idade.

Há ainda fatores intangíveis, porém amplamente documentados pela literatura, relacionados a normas sociais e culturais. Modelos tradicionais de masculinidade frequentemente incentivam a tolerância ao risco, a negligência com sinais de adoecimento e a resistência à busca por ajuda, inclusive em saúde mental. Essas dimensões simbólicas, embora menos mensuráveis, contribuem de maneira relevante para a sobremortalidade masculina observada em diversos países.

Do ponto de vista do mercado de trabalho, as implicações são significativas. A maior longevidade feminina tende a ampliar a presença das mulheres nas faixas etárias mais elevadas da força de trabalho, ao mesmo tempo em que expõe desigualdades acumuladas ao longo da vida profissional, como diferenças salariais, interrupções de carreira e menor proteção previdenciária. Para os homens, a sobremortalidade em idades produtivas representa perda de capital humano, aumento de afastamentos e impactos diretos sobre produtividade e segurança operacional.

Essas evidências reforçam a necessidade de políticas públicas estruturadas para promover a longevidade saudável. No Brasil, algumas iniciativas merecem destaque. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) busca ampliar o acesso masculino aos serviços de saúde, com foco em prevenção e diagnóstico precoce. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) atua de forma transversal ao longo do ciclo de vida feminino, indo além da saúde reprodutiva. A Estratégia Saúde da Família, eixo central do Sistema Único de Saúde, tem papel decisivo na ampliação do cuidado preventivo e na redução de mortalidade evitável. No campo da segurança, o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS) enfrenta uma das principais causas de morte precoce entre homens jovens.

Para as organizações, compreender a longevidade como variável estratégica implica repensar políticas de saúde ocupacional, prevenção de riscos, desenho de carreiras mais longas e flexíveis e modelos de gestão que considerem diferentes ciclos de vida. A longevidade, quando bem gerida, deixa de ser um custo inevitável e passa a ser um ativo — tanto para pessoas quanto para empresas e para o país.


Referências (fontes verificáveis)

·       IBGE (2024). In 2023, life expectancy reaches 76.4 years; surpasses pre-pandemic level (Tábuas Completas de Mortalidade 2023). https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/en/agencia-news/2184-news-agency/news/42021-in-2023-life-expectancy-reaches-76-4-years-surpasses-pre-pandemic-level

·       IBGE (2023). Censo 2022: número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em 12 anos (inclui distribuição por sexo da população). https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos

·       INED. Are there more men or more women in the world? (estimativa global por sexo). https://www.ined.fr/en/everything_about_population/demographic-facts-sheets/faq/more-men-or-women-in-the-world/

·       Our World in Data. Why do women live longer than men? (síntese com evidências e referências). https://ourworldindata.org/why-do-women-live-longer-than-men

·       Ministério da Saúde (2009). Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) — Portaria nº 1.944/GM. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2009/prt1944_27_08_2009.html

·       Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) — documentos e diretrizes. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-mulher

·       Ministério da Saúde. Estratégia Saúde da Família (ESF) — Atenção Primária à Saúde. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/estrategia-saude-da-familia

·       SENATRAN / Ministério dos Transportes. Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS). https://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/transito/senatran/pnatran

·       WHO. Injuries and violence (fact sheet). https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/injuries-and-violence

 
 
 

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