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A inteligência artificial não está substituindo profissionais. Está substituindo determinadas formas de trabalhar.

  • Marcia Amorim
  • há 6 horas
  • 7 min de leitura

Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco. Women Corporate Directors - WCD Member.


Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.
Criação: Marcia Amorim, com apoio de IA generativa — ChatGPT/OpenAI.

Durante os últimos anos, uma pergunta dominou boa parte das discussões sobre inteligência artificial e mercado de trabalho: quantos empregos serão eliminados pela tecnologia? Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

A questão mais importante pode ser outra: quantas formas de trabalhar deixarão de fazer sentido antes que as próprias profissões desapareçam?

Essa distinção é fundamental. Uma profissão não é uma tarefa isolada. É uma combinação de atividades, decisões, conhecimento, relacionamentos, julgamento e responsabilidade. Quando uma tecnologia passa a executar parte dessas atividades, isso não significa necessariamente que toda a ocupação deixará de existir. Significa, muitas vezes, que o trabalho precisará ser redesenhado.

É esse movimento que começa a ganhar escala.

Dados recentes da Organização Internacional do Trabalho indicam que 6,1% dos empregos ocupados por jovens entre 15 e 29 anos estão entre aqueles com maior exposição às transformações provocadas pela inteligência artificial. O dado merece atenção porque funções administrativas, de vendas e outras ocupações de qualificação intermediária tradicionalmente funcionaram como portas de entrada para o mercado. Ao mesmo tempo, áreas como ciência, engenharia, saúde e tecnologia continuam criando oportunidades.

A fotografia, portanto, é mais complexa do que simplesmente afirmar que “a IA está destruindo empregos”. Algumas atividades desaparecerão, outras serão ampliadas e muitas passarão a ser executadas de maneira completamente diferente.

Esse talvez seja o ponto central da transformação.

A inteligência artificial não precisa eliminar uma profissão para modificar profundamente a carreira de quem a exerce. Basta automatizar parte relevante das tarefas que justificavam aquela função, reduzir drasticamente o tempo necessário para realizá-las ou permitir que uma pessoa faça aquilo que anteriormente exigia várias.

Imagine um profissional que dedicava três horas à preparação de um relatório. Com apoio da inteligência artificial, a primeira versão pode estar pronta em trinta minutos. O que acontecerá com as duas horas e meia liberadas?

Essa pergunta interessa muito mais ao futuro do trabalho do que a discussão simplificada sobre desaparecimento de profissões.

A empresa poderá utilizar esse tempo para aumentar o volume produzido, melhorar a qualidade das análises, reduzir estruturas ou direcionar o profissional para atividades mais estratégicas. E o trabalhador poderá transformar esse ganho de produtividade em vantagem ou descobrir que parte significativa do que fazia já não representa um diferencial.

Por isso, talvez seja mais útil analisar tarefas do que cargos.

Um advogado pesquisa, interpreta, escreve, negocia, aconselha e formula estratégias. Um médico coleta informações, interpreta exames, constrói hipóteses, conversa com pacientes e toma decisões. Um executivo analisa dados, organiza argumentos, conduz reuniões, administra conflitos, negocia prioridades e mobiliza pessoas.

A inteligência artificial pode alterar profundamente algumas dessas atividades sem eliminar nenhuma dessas profissões.

A OIT vem ressaltando justamente essa diferença: exposição tecnológica não significa automaticamente substituição. A tecnologia modifica possibilidades; os resultados sobre emprego dependerão também das escolhas feitas por organizações, governos, instituições e trabalhadores.

Essa discussão ganha contornos particulares em países como o Brasil.

Análises do Banco Mundial mostram que economias emergentes podem possuir proporcionalmente menos empregos sujeitos à substituição imediata pela inteligência artificial do que economias desenvolvidas. Ao mesmo tempo, existe outro risco igualmente relevante: não conseguir capturar os benefícios da tecnologia.

Na América Latina e no Caribe, estimativas do Banco Mundial e da OIT indicam que entre 26% e 38% dos empregos apresentam algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Uma parcela desses trabalhadores poderia experimentar ganhos relevantes de produtividade, mas dificuldades de acesso, infraestrutura e competências digitais limitam essa oportunidade.

Surge, portanto, uma nova possibilidade de desigualdade profissional.

A diferença poderá não estar apenas entre quem possui mais ou menos escolaridade, mas entre quem aprendeu a trabalhar com inteligência artificial e quem continua executando suas atividades exatamente da mesma maneira.

Esse ponto merece especial atenção.

A tecnologia está se tornando cada vez mais acessível. Em muitas situações, dois profissionais com experiências semelhantes terão acesso às mesmas ferramentas. A vantagem competitiva estará menos em possuir a tecnologia e mais em saber utilizá-la com inteligência.

Isso exige algo muito diferente de simplesmente dominar comandos.

Quanto mais uma ferramenta consegue pesquisar, resumir, escrever, calcular e organizar informações, maior se torna a importância de saber formular problemas, avaliar respostas, perceber inconsistências, compreender contexto e assumir responsabilidade pelas decisões.

Um profissional pode pedir à inteligência artificial que resuma cem páginas em poucos segundos. Ainda precisará reconhecer se aquilo que realmente importa está presente no resumo. Pode gerar uma apresentação rapidamente, mas terá de avaliar se os argumentos fazem sentido. Pode produzir uma análise financeira, mas alguém deverá compreender as premissas utilizadas e seus riscos.

A produtividade tecnológica não elimina o julgamento humano.

Talvez faça exatamente o contrário: torne-o mais valioso.

Essa mudança também transforma o significado da experiência profissional. Durante décadas, parte do valor de uma pessoa estava na capacidade de executar com rapidez aquilo que havia feito centenas de vezes. Quando a tecnologia assume a parcela repetitiva do processo, a experiência precisa aparecer de outra maneira: na capacidade de reconhecer padrões, identificar exceções, antecipar consequências e tomar decisões em situações ambíguas.

O especialista continuará importante, mas sua especialização precisará produzir algo além da execução.

Também será necessário rever aquilo que chamamos de produtividade. Fazer mais em menos tempo não significa necessariamente gerar mais valor. Uma empresa pode utilizar inteligência artificial para produzir mais relatórios, mensagens, planilhas e apresentações e, paradoxalmente, apenas aumentar a quantidade de informação circulando sem melhorar nenhuma decisão.

O verdadeiro potencial está em usar o tempo economizado para aquilo que as organizações frequentemente afirmam ser importante, mas raramente conseguem priorizar: pensar, analisar, ouvir clientes, inovar, desenvolver pessoas, conversar sobre problemas difíceis e avaliar alternativas antes de decidir.

Nesse ponto, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser gerencial.

Cabe aos líderes decidir se a inteligência artificial será tratada apenas como ferramenta de redução de custos ou como oportunidade para redesenhar o trabalho.

Quando a adoção começa exclusivamente pela pergunta “quantas pessoas podemos reduzir?”, existe o risco de automatizar processos inadequados, eliminar conhecimentos importantes e obter eficiência de curto prazo à custa da capacidade futura da organização.

Uma pergunta mais produtiva seria: como podemos reorganizar o trabalho para que pessoas e tecnologia façam aquilo em que cada uma gera mais valor?

Isso exige olhar para dentro das funções. Quais tarefas são repetitivas? Quais exigem julgamento? Quais dependem de relacionamento? Quais podem ser automatizadas? Quais podem ser ampliadas pela tecnologia? E, principalmente, quais novas responsabilidades surgirão quando parte do trabalho operacional desaparecer?

As áreas de gestão de pessoas também precisarão acompanhar essa mudança. Descrições de cargos construídas anos atrás podem deixar de representar aquilo que as pessoas efetivamente fazem. Programas de treinamento não poderão limitar-se a ensinar ferramentas. Será necessário desenvolver pensamento crítico, capacidade analítica, curiosidade, discernimento e aprendizagem contínua.

O trabalhador, por sua vez, não deveria esperar que a empresa determine quando começar.

Uma pergunta simples pode iniciar esse processo: quais atividades que realizo hoje poderiam ser feitas mais rapidamente com apoio da inteligência artificial?

Depois vem uma pergunta ainda mais relevante: o que farei com o tempo que a tecnologia liberar?

É aí que começa a diferença entre utilizar inteligência artificial e transformar a própria forma de trabalhar.

A resposta também não deveria ser simplesmente “vou aprender a usar determinada ferramenta”. Ferramentas mudam. Algumas que hoje parecem indispensáveis poderão ser substituídas rapidamente.

O diferencial mais sustentável estará na combinação entre tecnologia, conhecimento do negócio, repertório, julgamento e capacidade de trabalhar com pessoas.

Há ainda um desafio pouco discutido: como formar os profissionais do futuro.

Muitas atividades que podem ser automatizadas eram justamente aquelas por meio das quais jovens aprendiam. Preparar relatórios, analisar planilhas, realizar pesquisas e acompanhar profissionais experientes não eram apenas tarefas operacionais. Funcionavam como etapas de desenvolvimento.

Se as organizações simplesmente eliminarem essas atividades sem redesenhar os mecanismos de aprendizagem, poderão produzir um paradoxo: empresas extremamente eficientes no presente e incapazes de formar profissionais suficientemente experientes para o futuro.

Isso exigirá novas formas de aprendizagem no trabalho, supervisão, mentoria e exposição deliberada a problemas complexos.

A discussão sobre inteligência artificial e emprego, portanto, não deveria ser reduzida à disputa entre otimistas e pessimistas.

Algumas funções desaparecerão. Outras surgirão. Muitas serão profundamente modificadas. Alguns profissionais multiplicarão sua produtividade. Outros descobrirão que aquilo que consideravam seu diferencial tornou-se acessível a qualquer pessoa com uma ferramenta adequada.

O cenário ainda está em construção, mas uma tendência já parece clara: a permanência das formas atuais de trabalhar é provavelmente menos segura do que a permanência de muitas profissões.

Talvez o maior risco não seja a inteligência artificial substituir um profissional.

Pode ser outro profissional, ocupando uma função semelhante, aprender a utilizar a tecnologia para analisar melhor, decidir mais rápido, produzir com maior qualidade e dedicar mais tempo àquilo que efetivamente gera valor.

Nesse cenário, proteger a carreira não significa competir com a inteligência artificial.

Significa deixar de concentrar energia naquilo que ela consegue fazer melhor.

E investir justamente nas capacidades que permitem transformar informação em entendimento, produtividade em valor e tecnologia em decisões melhores.


Para refletir…

Se o conhecimento técnico estiver cada vez mais disponível e muitas atividades especializadas puderem ser realizadas com apoio da inteligência artificial, talvez o profissional mais preparado para o futuro não seja aquele que conhece profundamente apenas um assunto, mas aquele capaz de combinar profundidade com visão ampla.

Como continuar sendo especialista sem ficar limitado pela própria especialização? E por que compreender negócios, pessoas, tecnologia e outras áreas poderá se tornar tão importante quanto dominar a própria disciplina?

Este artigo é de autoria de Marcia Amorim, com apoio de inteligência artificial generativa. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida desde que os créditos sejam devidamente atribuídos


Referências

·       International Labour Organization (OIT). Artificial Intelligence and the World of Work. Pesquisas sobre inteligência artificial, exposição ocupacional e futuro do trabalho.

·       International Labour Organization (OIT). The future of work will not be determined by technology alone. 2026.

·       Reuters. Global youth unemployment rises amid sluggish job creation and looming AI risk, UN labour agency says. Agosto de 2026.

·       Reuters. US labor market stable; worker productivity accelerates in second quarter. Agosto de 2026.

·       Reuters. AI offers “lifeline” for emerging economies, World Bank says. Agosto de 2026.

·       World Bank. World Development Report 2026: Decoding AI. 2026.

·       World Bank e International Labour Organization. Generative AI and Jobs in Latin America and the Caribbean: Is the Digital Divide a Buffer or Bottleneck?

·       World Bank. Quantifying the Jobs Potential of AI in Latin America and the Caribbean.

·       OECD. OECD Employment Outlook 2026. 2026.

·       LinkedIn Economic Graph. A New World of Work: Global Labor Market Rotates, Not Retreats. 2026.


 
 
 

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