Um defeito de cor — identidade, poder e o papel das organizações no Brasil, de Ana Maria Gonçalves
- Marcia Amorim
- 5 de mai.
- 4 min de leitura
Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco. Women Corporate Directors - WCD Member.

Ler Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, é mais do que atravessar uma narrativa literária de grande densidade histórica. É confrontar, com profundidade e desconforto, as raízes culturais que ainda moldam a sociedade brasileira — e, por consequência, o ambiente organizacional em que empresas, líderes, profissionais e, instituições em geral, operam.
A obra, amplamente reconhecida pela crítica e pelo meio acadêmico como uma das mais relevantes da literatura brasileira contemporânea, reconstrói a trajetória de uma mulher negra em meio à escravidão e ao período pós-colonial. Ao fazê-lo, revela não apenas uma história individual, mas uma estrutura social que naturalizou desigualdades, silenciamentos e exclusões ao longo de gerações. E é justamente nesse ponto que a leitura deixa de ser apenas literária para se tornar profundamente organizacional.
A pergunta que emerge — e que talvez incomode — é direta: o quanto dessas estruturas ainda se reproduzem, de forma mais sutil, dentro das organizações brasileiras?
No discurso corporativo contemporâneo, diversidade, equidade e inclusão são frequentemente tratados como pilares estratégicos, associados a inovação, desempenho e reputação. Relatórios de organizações como McKinsey & Company e Boston Consulting Group indicam, de forma consistente, que ambientes diversos tendem a apresentar melhores resultados financeiros e maior capacidade de inovação. No entanto, a realidade prática ainda revela um desalinhamento significativo entre discurso e prática.
Um defeito de cor expõe, de maneira implícita, um dos principais desafios da agenda de diversidade no Brasil: não se trata apenas de ampliar representatividade, mas de reconhecer e enfrentar estruturas históricas profundamente enraizadas. Estruturas que influenciam oportunidades, acesso, voz e, sobretudo, poder.
Esse debate se aprofunda quando incorporamos um fator frequentemente tratado de forma periférica nas discussões corporativas, mas absolutamente central na reprodução das desigualdades: a fragilidade do sistema educacional brasileiro. A precariedade do ensino público, especialmente na educação básica, limita de forma significativa a formação de crianças e jovens, comprometendo o desenvolvimento de competências essenciais para a vida profissional e para o exercício pleno da cidadania. Ao não preparar adequadamente esses indivíduos para enfrentar ambientes competitivos, o sistema educacional acaba por reforçar desigualdades históricas, restringindo o acesso a oportunidades que poderiam transformar trajetórias individuais e familiares.
Nesse contexto, o discurso meritocrático — tão presente nas organizações — precisa ser revisitado com maior rigor crítico. Em um país onde as condições de partida são profundamente desiguais, até que ponto é possível falar em mérito sem considerar o impacto da qualidade da educação, do ambiente social e do acesso a oportunidades ao longo da vida? Essa não é apenas uma questão social; é uma questão estratégica para empresas que dependem de talentos qualificados e diversos para sustentar crescimento e inovação.
No mundo corporativo isso implica uma mudança de abordagem. Diversidade não pode ser tratada como iniciativa periférica, vinculada apenas a políticas de recursos humanos ou ações institucionais pontuais. Trata-se de uma questão estrutural, que exige reflexão sobre o papel das organizações na formação e desenvolvimento de talentos, na inclusão produtiva e, em alguns casos, até mesmo na compensação de lacunas deixadas por sistemas públicos insuficientes.
Essa provocação encontra respaldo em estudos sobre viés inconsciente (unconscious bias – viés inconsciente), amplamente discutidos em ambientes corporativos globais. Pesquisas indicam que decisões organizacionais são frequentemente influenciadas por padrões culturais internalizados, que afetam avaliação de desempenho, seleção de talentos e reconhecimento profissional. Quando combinados com desigualdades educacionais, esses vieses ampliam ainda mais as barreiras de acesso e progressão.
No Brasil, essa discussão ganha contornos ainda mais complexos. A herança histórica abordada por Ana Maria Gonçalves não é apenas um passado distante; ela se manifesta, ainda hoje, em indicadores sociais, na composição das lideranças e na distribuição de oportunidades. Ignorar esse contexto não é apenas uma falha ética — é uma limitação estratégica.
Organizações que desejam operar com relevância no século XXI precisam ampliar sua capacidade de leitura da sociedade em que estão inseridas. Isso inclui reconhecer que diversidade não se constrói apenas com intenção, mas com ação estruturada — e que educação, inclusão e desenvolvimento de talentos fazem parte de um mesmo ecossistema.
Nesse sentido, Um defeito de cor oferece uma contribuição singular: ao deslocar o olhar para fora do ambiente corporativo, ele amplia a consciência sobre os fatores que moldam comportamentos dentro das organizações. A literatura, nesse caso, atua como um espelho — muitas vezes incômodo — da realidade social.
Para quem vive inserido no contexto das instituições, a provocação final permanece: qual é o papel da organização nesse cenário? Reproduzir desigualdades ou atuar como agente de transformação? Em um ambiente onde a competitividade exige cada vez mais qualificação, ignorar a base educacional da sociedade não é apenas um equívoco social — é um risco para a sustentabilidade dos próprios negócios. É um risco para a construção de uma sociedade justa, inclusiva e inspiradora para se viver.
ReferênciasGONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Record.
Boston Consulting Group. How Diverse Leadership Teams Boost Innovation.
Fundação Dom Cabral. Estudos sobre diversidade e liderança no Brasil.
Nota de Propriedade IntelectualEste artigo é de autoria de Marcia Amorim. A reprodução total ou parcial deste conteúdo é permitida desde que os créditos sejam devidamente atribuídos à autora.



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