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Um divisor de águas na vida das famílias empresárias...

  • Marcia Amorim
  • há 12 horas
  • 4 min de leitura

Ao longo da trajetória de amadurecimento do modelo de governança das empresas administradas por família empresárias, a criação de um conselho consultivo costuma representar um divisor de águas. Trata-se de um movimento que sinaliza maturidade, disposição para ouvir perspectivas externas e compromisso com a perenidade do negócio. Ainda que esse colegiado não detenha poder deliberativo formal nem responsabilidades fiduciárias típicas de um conselho de administração estatutário, sua atuação pode influenciar decisivamente a qualidade das decisões estratégicas e o fortalecimento das práticas de governança.

O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC destaca que a boa governança se sustenta nos princípios da transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Mesmo não sendo órgão obrigatório, o conselho consultivo pode funcionar como importante mecanismo de aconselhamento estruturado, promovendo disciplina na agenda estratégica, ampliando a visão de riscos e estimulando o alinhamento entre sócios e executivos. Em empresas familiares, nas quais as fronteiras entre propriedade, gestão e família nem sempre estão claramente delimitadas, esse papel ganha ainda mais relevância.

Entre as principais responsabilidades dos conselheiros consultivos está o aconselhamento estratégico consistente. Espera-se que contribuam com análises críticas sobre posicionamento competitivo, expansão, sucessão, estrutura de capital e sustentabilidade do modelo de negócios. Estudos da McKinsey & Company sobre a efetividade dos conselhos indicam que colegiados de alto desempenho dedicam tempo substancial à discussão de futuro, e não apenas ao acompanhamento de resultados históricos. Embora tais estudos se concentrem em conselhos de administração, suas conclusões são plenamente aplicáveis aos conselhos consultivos que buscam gerar valor real.

Outro papel essencial é atuar como contraponto construtivo à gestão. Relatórios da PwC sobre empresas familiares mostram que organizações que incorporam conselheiros externos tendem a apresentar maior confiança dos stakeholders (partes interessadas) e decisões mais estruturadas. O conselheiro consultivo deve formular perguntas relevantes, questionar premissas, solicitar dados adicionais quando necessário e oferecer referências comparativas de mercado, sempre com postura colaborativa e respeito à autoridade executiva. Não se trata de substituir a gestão, mas de ampliar sua capacidade de reflexão.

A contribuição para a organização das relações entre família, propriedade e empresa também integra o escopo de responsabilidades. Pesquisas da Fundação Dom Cabral e do Cambridge Family Enterprise Group apontam que a longevidade das empresas familiares está diretamente associada à clareza de papéis e à existência de fóruns apropriados para cada tipo de decisão. O conselheiro consultivo pode apoiar a construção de políticas para ingresso de familiares na gestão, critérios objetivos de avaliação de desempenho, diretrizes para sucessão e mecanismos de resolução de conflitos, sempre respeitando a autonomia dos sócios.

No campo da gestão de riscos e da integridade, ainda que não possua dever legal equiparável ao de um administrador estatutário, o conselheiro consultivo deve agir com diligência, zelo e independência. Os Principles of Corporate Governance da OECD enfatizam a importância de estruturas que assegurem supervisão eficaz e aconselhamento independente. Ao incentivar boas práticas de controles internos, compliance (conformidade) e gestão de riscos, o conselho consultivo fortalece a resiliência da organização e contribui para sua reputação no mercado.

A ética e a confidencialidade são pilares inegociáveis. Conselheiros consultivos têm acesso a informações estratégicas sensíveis e devem manter sigilo absoluto, além de declarar eventuais conflitos de interesse. Relatórios do Fórum Econômico Mundial sobre liderança responsável reforçam que a confiança é ativo intangível fundamental para a sustentabilidade das organizações. A atuação ética do conselheiro, especialmente em ambientes familiares, onde relações pessoais podem influenciar decisões, é condição indispensável para a credibilidade do colegiado.

Também se espera preparo técnico e dedicação efetiva ao papel. A literatura de KPMG e Deloitte sobre governança destaca que conselhos eficazes contam com membros que estudam previamente os materiais, participam ativamente das reuniões e acompanham a implementação das recomendações. No contexto consultivo, isso implica agenda estruturada, atas que registrem orientações e mecanismos de monitoramento das ações decorrentes das discussões. Sem disciplina e método, o conselho consultivo corre o risco de se tornar meramente simbólico.

É importante ressaltar que a influência do conselheiro consultivo decorre da qualidade de suas contribuições, e não de autoridade formal. Sua legitimidade é construída pela experiência, pela capacidade analítica, pela escuta ativa e pelo equilíbrio emocional para lidar com dinâmicas familiares complexas. Quando exerce seu papel com independência de pensamento e genuíno compromisso com a perenidade do negócio, torna-se agente catalisador do amadurecimento da governança.

Assim, os papéis e responsabilidades dos conselheiros consultivos nas empresas familiares ultrapassam a função de aconselhamento pontual. Eles ajudam a estruturar o pensamento estratégico, elevam o nível das decisões, estimulam a profissionalização e fortalecem a cultura de prestação de contas. Ao contribuírem para a construção de processos mais robustos e transparentes, apoiam a transição de modelos centralizados na figura do fundador para organizações preparadas para atravessar gerações com solidez e coerência.


Referências

IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa.OECD – Organisation for Economic Co-operation and Development.

G20/OECD Principles of Corporate Governance.PwC.

Global Family Business Survey.McKinsey & Company.

Publicações sobre board effectiveness e governança corporativa.KPMG.

Board Leadership Center – estudos sobre desempenho de conselhos.Deloitte. Publicações sobre governança e empresas familiares.Fundação Dom Cabral. Pesquisas sobre governança em empresas familiares.

Cambridge Family Enterprise Group. Estudos sobre longevidade e governança em family enterprises (empresas familiares).

Fórum Econômico Mundial. Relatórios sobre governança e liderança responsável.


 
 
 

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