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Será que estamos realmente prontos para 2026?

  • Marcia Amorim
  • 26 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco.




DALL- E
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Como todos nós sabemos, o desenvolvimento econômico de um país não ocorre em um vácuo institucional ou social. Ele é moldado por um conjunto complexo de fatores políticos, institucionais e culturais que influenciam expectativas, decisões de investimento e a própria dinâmica do mercado de trabalho. No Brasil, temas como corrupção, confiança nas instituições, estabilidade política e previsibilidade regulatória exercem influência direta sobre a geração de empregos, a criação de novos negócios e a capacidade de crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).

Este artigo propõe uma análise integrada desses elementos, considerando o contexto atual e a proximidade das eleições presidenciais de 2026, com atenção aos impactos sobre o ambiente econômico e empresarial. A reflexão é orientada para profissionais em geral — em especial executivos e conselheiros — que precisam interpretar cenários complexos e tomar decisões estratégicas de longo prazo.

A confiança nas instituições é um pilar do desenvolvimento econômico. Em termos práticos, confiança reduz custos de transação, favorece decisões de investimento e sustenta a percepção de previsibilidade — condição central para que empresas contratem, expandam capacidade produtiva e apostem em inovação. Quando a confiança institucional é baixa, a economia tende a operar com “freios invisíveis”: empresas postergam planos, investidores pedem prêmios de risco mais altos e o empreendedorismo perde fôlego. Nesses cenários, o mercado de trabalho costuma responder com maior cautela em contratações e com crescimento de ocupações menos qualificadas ou mais vulneráveis à informalidade.

A literatura econômica é consistente ao apontar que a corrupção prejudica produtividade e crescimento, distorce a concorrência e desloca recursos para atividades menos eficientes. No cotidiano corporativo, isso se traduz em insegurança na tomada de decisão, aumento de custos de conformidade, menor previsibilidade e maior seletividade na alocação de capital. No Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2024, da Transparência Internacional, o Brasil registrou 34 pontos e ficou na 107ª posição entre 180 países. Rankings dessa natureza são amplamente utilizados por investidores e áreas de risco para avaliar estabilidade institucional e risco reputacional, influenciando decisões de investimento de longo prazo.

A Fundação Dom Cabral, a partir de análises associadas ao IMD World Competitiveness Ranking, tem reiteradamente apontado fragilidades na qualidade das instituições brasileiras quando comparadas às de outros países da América Latina. Nos relatórios mais recentes, o Brasil aparece nas posições inferiores do ranking geral e apresenta desempenho fraco em dimensões relacionadas à eficiência governamental e à estrutura institucional. Em 2024, por exemplo, o país ocupou a 62ª posição no ranking geral do IMD, com destaque negativo para fatores como previsibilidade das políticas públicas, eficiência do setor público e ambiente regulatório. Esses resultados ajudam a explicar por que o país tem dificuldade em transformar potencial econômico em produtividade, competitividade e crescimento sustentado.

A confiança dos agentes econômicos é determinante para decisões de investimento e contratação. Ambientes com elevada volatilidade política tendem a encarecer o custo de capital e a reduzir investimentos de longo prazo, essenciais para ganhos de produtividade e crescimento sustentável. No caso brasileiro, esse efeito é amplificado pela percepção recorrente de instabilidade jurídica, caracterizada por mudanças frequentes de regras, interpretações divergentes entre instâncias decisórias e incertezas quanto à previsibilidade regulatória. Esse contexto fragiliza o planejamento estratégico das empresas, eleva prêmios de risco e desestimula investimentos estruturantes, com impactos diretos sobre a geração de empregos de maior qualidade e sobre a criação e escalabilidade de novos negócios.

A proximidade das eleições presidenciais de 2026 adiciona uma camada adicional de incerteza ao ambiente econômico. Em contextos marcados por polarização político-partidária, debates sobre política fiscal, papel do Estado, regulação de mercados e agenda trabalhista tendem a se intensificar, afetando expectativas e decisões empresariais. Para executivos e conselheiros, a leitura do cenário exige uma visão pluralista, capaz de incorporar diferentes perspectivas, reduzir vieses e separar ruído de tendências estruturais.

Em ambientes polarizados, executivos e conselheiros precisam considerar que decisões de longo prazo demandam uma leitura mais ampla das forças políticas e sociais em curso, indo além das disputas eleitorais imediatas. Essa análise ganha relevância quando se observa que o Brasil ocupa posições desfavoráveis em rankings internacionais de governança e ambiente institucional, como a 107ª posição no Índice de Percepção da Corrupção e a 124ª posição no ranking Doing Business do Banco Mundial, indicadores que influenciam diretamente a confiança de investidores e o custo do capital.

O mercado de trabalho e a criação de novos negócios funcionam como termômetros sensíveis desse contexto. Quando há confiança e previsibilidade, empresas investem, expandem operações e contratam com mais coragem; empreendedores conseguem planejar com horizonte mais longo e construir modelos de negócio mais intensivos em produtividade. Quando prevalecem incerteza e instabilidade, a tendência é de retração, maior informalidade e menor dinamismo econômico.

Para executivos e conselheiros, torna-se essencial adotar uma visão pluralista, baseada em dados, indicadores e múltiplas perspectivas, evitando leituras simplificadas do cenário nacional. A capacidade de interpretar o contexto com profundidade, avaliar riscos institucionais e construir estratégias resilientes tende a ser cada vez mais determinante para a sustentabilidade das organizações e para a contribuição efetiva ao desenvolvimento econômico do país.


Referências

• Transparência Internacional Brasil. Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2024 — Brasil.

• Banco Mundial. Doing Business 2020 — Brazil.

• OCDE. Drivers of Trust in Public Institutions in Brazil (2023).

• Fundação Dom Cabral / IMD. Relatório de Competitividade IMD 2024.C.pdf

 
 
 

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