Como estabelecer alternativas profissionais que tragam plenitude pessoal e profissional?
- Marcia Amorim
- 23 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 23 de dez. de 2025
Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation – ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco.

A trajetória profissional contemporânea tornou-se estruturalmente mais instável. Transformações tecnológicas, reorganizações setoriais, ciclos econômicos mais curtos e mudanças nos modelos de trabalho reduziram a previsibilidade que, durante décadas, sustentou carreiras lineares, baseadas em um único vínculo profissional. Nesse contexto, construir uma carreira que ofereça alternativas diante das adversidades deixou de ser uma escolha circunstancial e passou a configurar uma competência estratégica.
Mais do que acumular cargos ou funções, o desafio contemporâneo consiste em desenvolver um portfólio profissional coerente, capaz de gerar renda, aprendizado contínuo, reputação e senso de propósito — mesmo em cenários de ruptura, transição ou reinvenção. E isso independe da área de atuação, faixa etária ou nível educacional.
A síndrome do impostor pode ser um obstáculo silencioso à diversificação profissional. E nesse caso, estamos falando de um dos fatores que mais inibem a ampliação de alternativas profissionais é a chamada síndrome do impostor. O termo "síndrome do impostor" foi introduzido por Pauline Clance e Suzanne Imes, em 1978, ao descreverem a experiência recorrente de profissionais altamente competentes que atribuem seus resultados à sorte ou a fatores externos, convivendo com o receio constante de serem “descobertos” como fraudes.
Estudos posteriores demonstraram que a síndrome do impostor não está associada à falta de competência. Ao contrário, manifesta-se com frequência em profissionais de alta performance, líderes e especialistas técnicos (Clance, 1985; Bravata et al., 2020). Para executivos, profissionais liberais e outros profissionais em geral, esse fenômeno costuma se expressar na hesitação em assumir novos papéis, oferecer serviços consultivos, empreender, lecionar, escrever ou atuar de forma autônoma.
Superar a síndrome do impostor exige movimentos conscientes e estruturantes. O primeiro deles é reconhecer evidências objetivas de competência, como histórico profissional, resultados entregues e reconhecimento externo. O segundo consiste em normalizar o desconforto inerente ao aprendizado contínuo, compreendendo que novos espaços de atuação não exigem domínio absoluto, mas responsabilidade, ética e preparo progressivo. Por fim, torna-se essencial construir narrativas profissionais consistentes, capazes de conectar a experiência acumulada a novas formas de entrega de valor.
Alguns profissionais liberais oferecem exemplos claros de como é possível estruturar carreiras com múltiplas frentes de atuação, sem perda de identidade ou coerência.
No caso dos advogados por exemplo, além do vínculo com escritórios ou departamentos jurídicos, é cada vez mais comum a atuação como consultores especializados, mediadores, árbitros, professores em cursos de pós-graduação, autores de artigos técnicos, conselheiros independentes ou especialistas em compliance e governança.
Soma-se a essas possibilidades a atuação no patrocínio de causas de forma independente, seja por meio de escritórios próprios, parcerias pontuais ou atuação direta em causas específicas, respeitados os limites éticos e regulatórios definidos pela Ordem dos Advogados do Brasil.
Essa combinação entre vínculos formais e atividades autônomas ou empreendedoras amplia a renda, fortalece a reputação profissional, aprofunda especializações e reduz a dependência de um único empregador ou cliente.
De forma semelhante e como mais um exemplo, os engenheiros têm expandido suas carreiras para além do emprego formal, atuando como consultores técnicos, gestores de projetos, especialistas em perícias, docentes, mentores de startups ou conselheiros técnicos em conselhos consultivos e de administração. A base técnica sólida, quando combinada com visão sistêmica, capacidade analítica e comunicação clara, cria oportunidades relevantes de atuação paralela, tanto autônoma quanto empreendedora.
Mas será que é realmente possível conciliar emprego fixo, atividades empreendedoras ou autônomas?
A conciliação entre relações de trabalho contratuais e atividades empreendedoras ou autônomas é possível, desejável e, em muitos casos, estratégica. Embora frequentemente tratadas como equivalentes, essas duas formas de atuação possuem naturezas distintas.
As atividades autônomas estão associadas à prestação direta de serviços especializados, fortemente dependentes da experiência acumulada, de habilidades técnicas ou artísticas específicas e do tempo disponível do próprio profissional — como consultorias, pareceres técnicos, aulas, mentorias ou projetos específicos e atividades ligadas às artes em geral. Já as atividades empreendedoras envolvem a criação e o desenvolvimento de estruturas mais perenes, como negócios, plataformas, produtos, cursos, escritórios ou empresas, que podem ganhar escala ao longo do tempo e reduzir gradualmente a dependência exclusiva da presença do fundador.
Ambas podem coexistir com um emprego fixo, desde que haja clareza de limites, alinhamento ético e disciplina. O primeiro passo consiste em compreender as restrições contratuais, políticas internas e potenciais conflitos de interesse. Em seguida, torna-se essencial definir com precisão quais competências serão oferecidas externamente e de que forma essas iniciativas — sejam autônomas ou empreendedoras — complementam, e não competem, com o papel principal exercido na organização.
Pesquisas do Fórum Econômico Mundial indicam que carreiras híbridas, baseadas em múltiplas competências e fontes de renda, tendem a aumentar a empregabilidade e a resiliência profissional em ambientes marcados por volatilidade e incerteza (Future of Jobs Report).
Uma jornada profissional que combine a segurança desejada e uma diversificação estruturada das atividades profissionais remuneradas costuma apoiar-se em alguns pilares fundamentais. O primeiro deles é o mapeamento de competências centrais e transferíveis, identificando quais conhecimentos podem ser aplicados em diferentes contextos. Em seguida, é necessário definir um eixo de identidade profissional, capaz de dar coerência às diversas atuações e evitar dispersão.
Outro aspecto relevante é construir reputação antes de depender financeiramente das novas frentes de atuação, iniciando atividades autônomas ou empreendedoras de forma gradual e consistente. Soma-se a isso o investimento em visibilidade qualificada, por meio de produção intelectual, participação em fóruns, conselhos, eventos e redes profissionais, bem como a adoção de uma governança pessoal da carreira, com critérios claros de priorização, agenda, limites e avaliação contínua de riscos.
A dependência excessiva de um único vínculo profissional aumenta significativamente a vulnerabilidade do indivíduo frente a mudanças organizacionais, crises econômicas ou decisões alheias ao seu controle. Diversificar fontes de atuação não representa instabilidade, mas sim gestão consciente de riscos, conceito amplamente discutido tanto na literatura de finanças quanto na de carreira.
Michael Arthur e Denise Rousseau, ao tratarem das chamadas boundaryless careers (carreiras sem fronteiras), destacam que profissionais que constroem redes amplas, múltiplas competências e identidades profissionais flexíveis tendem a preservar maior autonomia e adaptabilidade ao longo do tempo.
Mas é preciso considerar que existem vantagens e desvantagens da ampliação de alternativas profissionais.
Entre as principais vantagens da ampliação de alternativas profissionais destacam-se a maior segurança psicológica, a diversificação de renda, o aprendizado contínuo, o fortalecimento da marca profissional e o aumento do senso de propósito. Por outro lado, é necessário reconhecer desafios importantes, como o aumento da complexidade da agenda, a necessidade de disciplina pessoal, o risco de sobrecarga e a exigência de permanente alinhamento ético.
A maturidade profissional reside justamente na capacidade de equilibrar essas dimensões, evitando tanto a dispersão quanto a estagnação.
Manter-se preparado para desafios profissionais alternativos e concomitantes exige aprendizado contínuo, mas também reflexão crítica. Estudos da Harvard Business Review indicam que profissionais que investem de forma consistente em atualização técnica, desenvolvimento de habilidades socioemocionais e reflexão sobre a própria trajetória tendem a apresentar maior longevidade, adaptabilidade e satisfação profissional.
Mais do que acumular certificados, trata-se de cultivar curiosidade intelectual, capacidade de diálogo intergeracional e abertura para novas formas de pensar e agir. Esse movimento favorece não apenas a empregabilidade, mas um senso mais amplo de plenitude e significado da própria existência.
Em um mercado repleto de oportunidades, a decisão de estabelecer atividades remuneradas alternativas não é sinal de insegurança — é um sinal de lucidez estratégica.
Então, como anda a sua lucidez estratégica?
Referências
CLANCE, P. R.; IMES, S. A. The Impostor Phenomenon in High Achieving Women. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 1978.
CLANCE, P. R. The Impostor Phenomenon: When Success Makes You Feel Like a Fake. Peachtree Publishers, 1985.
BRAVATA, D. M. et al. Prevalence, Predictors, and Treatment of Impostor Syndrome: A Systematic Review. Journal of General Internal Medicine, 2020.
WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2023. Genebra.
WORLD ECONOMIC FORUM. Towards a Reskilling Revolution.
ARTHUR, M. B.; ROUSSEAU, D. M. The Boundaryless Career: A New Employment Principle for a New Organizational Era. Oxford University Press, 1996.
HARVARD BUSINESS REVIEW. Artigos sobre career resilience, lifelong learning e identidade profissional.
MCKINSEY & COMPANY. Jobs lost, jobs gained: workforce transitions in a time of automation.
DELOITTE. Global Human Capital Trends 2024.
OECD. Career Readiness and Adult Skills.
IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Publicações sobre carreira de conselheiros, ética, independência e desenvolvimento profissional.
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil. Estatuto da Advocacia e Código de Ética e Disciplina.



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