A escuta ativa como pilar essencial para o aprimoramento da governança nos negócios das famílias empresárias
- Marcia Amorim
- há 6 dias
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Marcia Amorim é Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente – Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation – ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria – Grupo Adecco. Women Corporate Directors – WCD Member.

Em qualquer contexto social, a escuta ativa tem o poder de assegurar a construção de relações saudáveis e produtivas.
Nos negócios, e principalmente naqueles administrados por famílias empresárias, onde a história, os vínculos afetivos e as responsabilidades empresariais convivem de forma ainda mais intensa, a qualidade das relações interpessoais exerce influência direta sobre a governança, a tomada de decisão e a sustentabilidade do negócio. Nesse contexto, a escuta ativa se apresenta como uma competência central para todos aqueles que desejam construir ambientes mais saudáveis, produtivos e orientados ao desenvolvimento contínuo. Escutar ativamente não significa apenas ouvir palavras, mas dedicar atenção plena ao outro, compreendendo o conteúdo da mensagem, suas intenções, emoções e implicações, especialmente em situações nas quais interesses familiares e organizacionais se cruzam.
A escuta ativa pressupõe presença e intenção. Trata-se de estar verdadeiramente disponível para compreender o ponto de vista do interlocutor, suspendendo julgamentos precipitados e evitando respostas automáticas. Pesquisas da Harvard Business Review demonstram que profissionais percebidos como bons ouvintes fortalecem a confiança, aumentam o engajamento e elevam a qualidade das decisões coletivas.
No âmbito da governança, essa habilidade é ainda mais relevante, pois conselhos eficazes dependem de diálogos qualificados, da valorização da diversidade de perspectivas e da capacidade de lidar com temas sensíveis, como sucessão, desempenho de familiares na gestão e alinhamento estratégico entre família, propriedade e administração.
Uma escuta verdadeiramente ativa se manifesta, em primeiro lugar, pela atenção genuína. Isso envolve reduzir distrações, demonstrar interesse real e sinalizar ao outro, por meio da postura e do olhar, que sua contribuição é relevante. A McKinsey destaca que grande parte dos problemas organizacionais atribuídos à estratégia ou à execução, na realidade, tem origem em falhas de comunicação e de compreensão mútua. Quando líderes escutam com profundidade, ampliam seu entendimento do contexto, capturam informações que não aparecem em relatórios formais e conseguem antecipar riscos e oportunidades de forma mais consistente.
Outro aspecto essencial da escuta ativa é a capacidade de formular perguntas que aprofundem o diálogo. Perguntar com curiosidade e respeito, em vez de questionar de forma defensiva, permite esclarecer premissas, explorar alternativas e enriquecer a análise coletiva. A Fundação Dom Cabral ressalta que perguntas bem construídas são instrumentos poderosos de aprendizagem, pois estimulam a reflexão e contribuem para conversas mais maduras e produtivas. No universo das famílias empresárias, essa prática ajuda a reduzir mal-entendidos, especialmente quando há diferenças geracionais ou assimetrias de poder entre membros da família e executivos não familiares.
A sensibilidade aos sinais não verbais também caracteriza a escuta ativa. Expressões faciais, tom de voz, pausas e linguagem corporal frequentemente comunicam mais do que as palavras em si. Estudos da Deloitte sobre liderança humanizada indicam que a capacidade de perceber essas nuances favorece a construção de ambientes psicologicamente seguros, nos quais as pessoas se sentem à vontade para expressar preocupações e ideias. Em contextos familiares, essa atenção é fundamental para identificar tensões latentes ou desconfortos que, se ignorados, podem evoluir para conflitos mais complexos e prejudicar a governança.
Do ponto de vista do desenvolvimento humano e organizacional, a escuta ativa amplia significativamente o repertório de aprendizagem. Profissionais que escutam com qualidade tendem a compreender melhor as expectativas da organização, a assimilar feedbacks de forma mais construtiva e a ajustar seu comportamento de maneira estratégica. O Fórum Econômico Mundial, em seus relatórios sobre o futuro do trabalho, aponta a escuta ativa e a empatia como competências humanas críticas em um cenário marcado pela automação e pelo avanço da inteligência artificial, no qual habilidades relacionais se tornam diferenciais competitivos relevantes.
Nas empresas familiares, a prática consistente da escuta ativa contribui significativamente para o aprimoramento dos mecanismos de governança. O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa enfatiza que relações baseadas em confiança, transparência e diálogo qualificado são pilares para a longevidade das organizações. Ao escutar ativamente, líderes e conselheiros criam espaço para que diferentes vozes sejam consideradas, favorecendo decisões mais equilibradas e alinhadas aos interesses de longo prazo da empresa e da família.
Em síntese, a escuta ativa é uma competência sofisticada, que exige autoconsciência, disciplina emocional e disposição para aprender continuamente com o outro. Quando incorporada à prática cotidiana de conselheiros e demais profissionais, ela transforma conversas em instrumentos de alinhamento, reduz conflitos improdutivos e fortalece relações de confiança. De maneira geral, escutar ativamente é um ato de responsabilidade, maturidade e visão de futuro, capaz de sustentar o crescimento coletivo, o aprimoramento das competências essenciais à sustentação da competitividade e a perenidade dos negócios.
Referências
Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC. Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa.
Harvard Business Review. Publicações sobre escuta ativa, liderança e tomada de decisão.
Deloitte. Human-Centered Leadership and Organizational Performance.
Fundação Dom Cabral. Estudos sobre liderança, comunicação e comportamento organizacional.
Fórum Econômico Mundial. The Future of Jobs Report.



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