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Por que as pessoas deixam suas empresas — e por que a liderança quase sempre está no centro da decisão?

  • Marcia Amorim
  • 13 de jan.
  • 4 min de leitura

Marcia Amorim - Conselheira de Administração Certificada pelo IBGC. Presidente do Conselho Consultivo do Grupo São Vicente - Rede Supermercadista do Estado de São Paulo. Coach de Executivos credenciada pela International Coaching Federation - ICF. Consultora Associada à Lee Hecht Harrison Consultoria - Grupo Adecco.



Existe um desconforto silencioso que precede muitos pedidos de demissão. Raramente é um “estalo” isolado. Na prática, a saída costuma ser o capítulo final de uma sequência de microexperiências: um gestor que não dá direção, uma promessa de desenvolvimento que não se cumpre, um ambiente que desgasta, um mérito que não é reconhecido, uma rotina que consome energia e devolve pouco sentido.

Quando perguntamos “por que as pessoas deixam suas empresas?”, a resposta verdadeira quase nunca cabe em uma única palavra. Mas os estudos ajudam a organizar o fenômeno — e revelam um elemento transversal a quase todas as causas: o enfraquecimento do engajamento.

Engajamento, aqui, não se confunde com satisfação pontual ou entusiasmo momentâneo. Trata-se do vínculo emocional e cognitivo do profissional com o trabalho, com a liderança e com o propósito da organização, refletido na disposição de investir energia, foco e responsabilidade além do mínimo esperado.


Os principais motivos por trás dos pedidos de demissão

Pesquisas recentes mostram que muitos profissionais não deixam suas empresas apenas por questões financeiras. Eles saem quando percebem que o custo emocional, relacional ou de desenvolvimento passou a ser alto demais.

Levantamentos da Society for Human Resource Management (SHRM) indicam que ambientes de trabalho tóxicos, relações frágeis com a liderança imediata e ausência de reconhecimento figuram entre os principais motivos para pedidos de desligamento voluntário. Esses fatores estão diretamente associados à queda progressiva do engajamento ao longo do tempo.

O Work Institute, que acompanha sistematicamente os motivos de desligamento em diferentes mercados, aponta o desenvolvimento de carreira como o fator mais recorrente. Quando o profissional deixa de enxergar perspectivas reais de crescimento, aprendizado ou mobilidade interna, o engajamento se deteriora de forma silenciosa até que a saída se torne uma decisão racional.

Qual é o peso da liderança nos desligamentos?

A liderança exerce influência direta sobre o nível de engajamento das equipes. Gestores são o principal ponto de contato entre o indivíduo e a organização, e a forma como conduzem expectativas, feedbacks, reconhecimento e desenvolvimento molda a experiência cotidiana de trabalho.

Estudos da Gallup demonstram que o gestor imediato é o principal fator de variação do engajamento dentro das equipes. Líderes que oferecem clareza de expectativas, reconhecimento frequente e oportunidades reais de desenvolvimento tendem a sustentar níveis mais elevados de engajamento e, consequentemente, menor rotatividade voluntária.

A liderança pesa nos pedidos de desligamento principalmente quando há quebra do contrato psicológico, ambientes emocionalmente inseguros ou uma gestão de desempenho baseada apenas em cobrança, sem orientação e apoio ao crescimento.

Como reter profissionais de alto desempenho

Profissionais de alto desempenho não buscam apenas desafios técnicos ou bons pacotes de remuneração. Eles buscam contextos que sustentem o engajamento ao longo do tempo, preservando energia, sentido e perspectiva de evolução.

A retenção passa, necessariamente, pela existência de trajetórias de carreira reais, e não apenas declaradas. Mobilidade interna, critérios transparentes de progressão, desafios crescentes e acesso a mentoria fortalecem o vínculo do profissional com a organização.

Outro fator decisivo é a preparação dos gestores para liderar pessoas e não apenas processos. Organizações que negligenciam o desenvolvimento da liderança acabam comprometendo sua principal alavanca de engajamento e retenção.

Cultura organizacional também exerce papel central. Ambientes incoerentes, politizados ou percebidos como injustos corroem rapidamente o engajamento, mesmo quando o discurso institucional é positivo.

O que torna uma organização desejada para trabalhar?

Quando alguém afirma que gostaria de trabalhar em determinada empresa, geralmente está reagindo a uma percepção de experiência organizacional positiva. Confiança, respeito, justiça, orgulho e senso de pertencimento são elementos recorrentes nessa avaliação.

O modelo do Great Place to Work associa ambientes desejados a dimensões como credibilidade, respeito, justiça, orgulho e camaradagem — todas diretamente relacionadas ao engajamento dos colaboradores.

Em um contexto de maior transparência, plataformas de avaliação tornaram visível a experiência interna das organizações. O nível de engajamento vivido pelos colaboradores passou a ser um ativo reputacional observável pelo mercado.

O que é EVP e sua relação com engajamento?

EVP, ou Employee Value Proposition, refere-se à proposta de valor percebida pelo colaborador ao trabalhar em uma organização. Inclui atributos tangíveis e intangíveis como desenvolvimento, cultura, liderança, recompensas, propósito e ambiente de trabalho.

Um EVP consistente sustenta o engajamento porque esclarece as trocas envolvidas na relação entre indivíduo e organização. Quando essa proposta é incoerente ou apenas retórica, o engajamento inicial tende a se converter rapidamente em frustração.

De quem é a responsabilidade pelo employer branding?

Employer branding não é uma campanha de atração, mas o reflexo da experiência interna vivida diariamente. Ele se sustenta, ou se fragiliza, a partir do nível de engajamento real dos colaboradores.

A responsabilidade pela construção de uma marca empregadora atrativa é compartilhada. A alta liderança define prioridades e legitima práticas; os gestores entregam a experiência cotidiana; o RH estrutura políticas, sistemas e rituais; e as áreas de comunicação traduzem essa experiência de forma coerente para o mercado.

Qual é o papel do RH na construção de um ambiente saudável, atraente e produtivo?

O RH exerce papel central na arquitetura do engajamento organizacional. Isso envolve escuta estruturada, desenvolvimento consistente de lideranças, sistemas de carreira e sucessão, práticas de saúde organizacional e coerência entre discurso, políticas e decisões reais.


Reter profissionais de alto desempenho não é, portanto, uma questão de segurar pessoas, mas de criar contextos nos quais o engajamento seja possível, sustentável e recompensador.



Referências

  • Society for Human Resource Management (SHRM). Future of Talent Retention.

  • Work Institute. Retention Report.

  • Gallup. State of the Global Workplace.

  • Great Place to Work. Trust Model.

  • Gartner. Employee Value Proposition.

  • Deloitte. Global Human Capital Trends.

 
 
 

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